Vamos conversar?

Vamos conversar?

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Até o fim!



Difícil saber quando é o fim. Mas enquanto não tenho certo comigo que a estrada não chegou ao fim, é difícil pra mim, simplesmente, dar a meiavoltavoltaemeiadar e voltar!

São várias situações na vida.

Há muuuuuuito tempo atrás, quando dependia de emprestar o carro da minha mãe pra dar uma voltinha de final de semana, gostava de ir com o carro por uma estradinha de terra, ou asfalto destas, rurais e ir, ir, ir até chegar ao fim! Era uma sensação gostosa… Acho que me sentia meio  exploradora! Por me aventurar por um caminho desconhecido…

Esta sensação, transferi para estradas. Nas viagens afora e na vida!


Quando eu comecei a correr, bem no auge da paixão, tinha o costume de ir pra uma estradinha de terra e, tal qual fazia com o carro da minha mãe, só que agora com as próprias pernas, ia, ia, ia, sem saber onde ia dar, bem no estilo “Forrest Gump” com uma sensação de liberdade me invadindo e me fazendo sorrir à toa, vento na cara, coisa boa. Simples, de graça, me fazia feliz!


Não somente em coisas boas, este sentimento de ir até o fim se fez presente.

Não sei se, um dia, eu ficasse doente, eu desistiria de tratamentos dolorosos antes de passar por eles, na tentativa de vencer a doença. Penso que não. Não sei! Nunca tive uma doença incurável grave.

Por outro lado, convivi com a depressão. Fiquei estável por anos e recai. A depressão é uma doença que quem passa por ela, sabe bem a apatia que causa, como a inércia toma conta da cabeça, do corpo e dizima a vontade, mesmo em pessoas normalmente cheias de vida e energia. Rouba de nós a vivacidade e a perseverança que temos em atividades triviais, fáceis, simples quando não estamos tomados por ela. E ficamos no meio do caminho, no meio fio da calçada, sem conseguir levantar e ir, seja pra lá, ou pra cá!


Meus problemas de saúde são, especificamente, na maquininha de fazer movimentar. Justo eu, uma educadora física, ex atleta, de natureza sapeca, irrequieta, que foi obrigada a parar tudo devido a um acidente, adormeceu por anos, até ser despertada pelo acaso e ir tomando posse do que a vida, generosamente, ofereceu.

Eu não tinha ideia das coisas que seria capaz de realizar. Também, quando a janela abriu pra mim, não tive a curiosidade, ou o medo de perguntar até onde poderia ir, pra me frear, antes mesmo de passar por ela, a janela! Fui. Só fui.


Quando se passa por uma janela, sem fazer perguntas demais, a gente corre o risco de ir muito além do que seria capaz de imaginar e planejar. O deslumbramento é tanto que causa um anestesiamento, um êxtase, comparável, sim, a uma droga. E se tirado repentinamente dela, causa igualmente os efeitos de uma abstinência. Não é uma droga do mal. É droga porque é um excesso. Faz mal. Mas faz bem, também! Tirá-la de uma vez, é anestesiamento da vida. De sucumbir à rotina. A mesmice insurpreendente que vai matando aos poucos. Calando vontades. Dizimando sonhos. Apagando brilhos nos olhos. Entortando para baixo os riscos dos lábios que sorriam.

No fundo, no fundo, eu ainda tenho a vontade. Só não consegui reagir. Confesso. São medos! Tive de passar pro lado de cá da linha que divide quem faz e quem não faz. Admito. Eu ficava do lado de lá apedrejando as pessoas sem vontade de fazer, sem vontade de levantar do sofá, sem vontade de sair e fazer. Fazer algo por si, melhorar suas vidas com atitudes simples como ir até ali na rua caminhar só um pouquinho, suar um pouquinho, extravasar energia pra querer algo mais, além daquilo que já tinha. É arrogante não compreender quem vive de um jeito diferente do seu. Um dia, você pode atravessar a linha e mudar de lado. Eu mudei.

Muitas coisas me aconteceram. Não importa dizer o quê, exatamente.

Quando você entra numa guerra, das duas, uma. Pode ganhar, pode perder. Corrigindo… Pode não entrar na guerra. Mesmo tendo sido jogado dentro dela. Pode ser morno, matar seus sentimentos, seus princípios, deixar a guerra assassinar tudo a sua volta, inclusive as verdades que você sempre sustentou e defendeu. Pode ficar ali parado e não fazer absolutamente nada!

Posso estar completamente errada. Pode ser que se fazer de morto seja a melhor forma de ficar em paz. De ninguém na guerra descobrir que você está vivo, ainda, e te deixarem em paz.

Será?

Pode ser que haja a hora certa de parar. Pode ser que haja o momento de levantar a bandeira branca. Se render…

Será?

Não creio que eu ficaria em paz se tivesse de me render. De desistir de lutar até o fim pelo que acredito ser a verdade. Ser o certo. Não é questão de orgulho. É questão de ter a consciência em concordância com os valores que acredito, com a verdade prevalecendo, de não emudecer diante de jogo de palavras que deturpam a história.

Será mesmo que uma vitória é mesmo vitória se para isso for necessário extrair frases de um livro, só as convenientes, para compor aquilo que se quer fazer parecer?

Posso perder no final. Nessa guerra injusta de maquiagem da verdade. Mas se perder a guerra, terei sempre a certeza de ter me mantido fiel à verdade, de não ter virado a casaca, me vendido, ter dado falso testemunho ou, pior, não ter resistido até o fim.

Numa guerra, posso até morrer. Mas jamais matarei meus sentimentos para ficar alheia a ela. Jamais ficarei em meio a guerra que prega inverdades, sem me posicionar, forjando não perceber, não doer, que triste é morrer sem tentar viver. 

sábado, 21 de outubro de 2017

Com que cara, tua cara se parece?


Não resisti! Achei fantástico o trabalho de uma professora de Artes no colégio. Uma releitura de imagens da Arte Expressionista! Rostos. Feitas por alunos do oitavo ano!

Olhe bem. Quantos sentimentos detém? Da imagem retratada? Do artista que a retratou? Do adolescente que a redesenhou?

E agora… Quantos sentimentos desperta e instiga em quem a olhou?

Pare desapressadamente. Por segundos. Minutos. Por uma boa quantidade de tempo. Suficiente pra imaginar sentimentos. Contidos em cada um destes rostos.

Com qual deles você se parece? Qual deles te retrata?


A arte imita a vida. Tanto a disfarça, como a revela. Fantasia, esconde e brinca de ser e não ser. Até você se perder e não mais saber em qual das máscaras se escondeu. Em qual dos medos se perdeu. Em qual amor aconteceu. E qual o rosto te prendeu.

Lá dentro, na caixa das memórias, há tinta suficiente pra você esboçar o rosto do jeito seu. E buscar bem fundo, no profundo quanta coisa boa que você perdeu, no correr do tempo.

Então, pincel a postos, camuflando e desfigurando, conte ali, sutilmente os rostos que conheceu. Os teus, os meus, os que foram aqueles que o tempo escondeu, mas você nunca perdeu. 

Não arraste os chinelos!


Outro dia, conversando com meu fisio, falei esta frase pra ele. Não estava falando dele. Mas de mim! Explico…

Gosto de usar a Crocs. Por mais feinha que seja, a bichinha é confortável por demais! Miliumautilidades, te serve de chinelo, calçado pro frio calçado com meias e ainda serve de estepe para pedalar quando quiser dar um descanso ao tênis ou sapatilha. Largona, te deixa com o pé livre, espaçoso lá dentro, folgadão…


Não é sempre que uso chinelo. Aquele que ostenta a fama de ser confortável e sinônimo de liberdade. E já entendi porquê!


Além de eu preferir a Crocs, sou muito relaxada pra andar de chinelo. E quando vejo, tô lá eu andando, arrastando o chinelo…
É muito desleixo! Não é questão de estar tão a vontade e relaxada. É relaxo! Daqueles que te faz se arrastar ao invés de andar. Percebe?

Sem depreciar. Arrastar chinelo é andar como  véio. Não pejorativamente, pela questão da idade. Mas pelo aspecto de ser um esforço físico tremendo. De malemá levantar os pés pra se deslocar. E, cambaleantemente, arrastar pés e chinelos, caminhada afora!


É preciso reagir! Postura! Esticar a coluna, peitopraforabarrigapradentro, puxar ombros para trás, estufar o peito, sentir as pernas e desenhar a passada! Puxar a força lá de dentro e não aceitar se arrastar. Porque pés que se arrastam, tropeçam mais fácil e te fazem cair. E as pedras estão sempre no caminho. E é preciso estar atento e vivo, com movimentos que passem por cima dos obstáculos. 

sábado, 14 de outubro de 2017

Convergências


Convergência vem de convergente. Con-ver-gente. Vergente. Vergente. Vergente…

Brincadeiras a parte, as convergências da vida que rodam, rodam e voltam de onde saíram. Como um pequeno rodopio de folhas que se levantam do chão e giram, giram, mas que se despejam de volta
.

Estou, no momento, aprendendo a entender que voltam, podem voltar, mas retornam diferentes. E é preciso enxergar as novas nuances que as folhas trazem, carregam e inspiram. E não ficar com o olhar fixo no que foram, perdendo a beleza do que são!

Amizades viram amores. Amores viram amizade. Perde-se. Acha-se. Repagina-se. Reinventa-se.

A transformação vejo, então, é a melhor saída. O que se transforma se adapta ao novo. E não é preciso mais descartá-lo. Pode nos acompanhar em roupagem nova!

Que bom! Vou levar comigo um amigo! Aquela conversa que não vê a hora passar, a madrugada adentrar, rir das velhas piadas tolas, das nossas bobices à toa, naquela teimosia de não falar, na igual tolice de continuar a falar e ter de concordar que certas coisas, nem o tempo muda.

Muda feição, não muda afeição.
Muda o rosto, não muda o gosto.
Somam-se rugas, desiste-se das fugas.

E o tempo, atrevido volta ponteiros de um relógio que não volta atrás!
Foram-se décadas. E algumas coisas não mudam.
Por um tempo se rebelam dos porquenão.
Com o tempo se permitem não fazer mais pergunta, não.
Porque existem coisas, simplesmente, feitas pra não se entender.
Feitas pra se viver, não importa com que fantasia estejam vestidas… 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Gratidão


Um passinho do lado de cá. Ano passado atravessei a ponte. Agora, um passo a mais do lado de cá.
Então, vamos lá! O que vejo do lado de cá?

Me sinto meio como plateia de mim mesma. Olhando de cima como tem sido, como tenho vivido. Impossível não fazer esta costumeira retrospectiva anual.

Ciclos! Hora de agradecer! Muito mais do que resmungar coisas que perdi, deixei de fazer, sinto falta, hora de agradecer por ter tido a oportunidade de tê-las vivido. E quantas foram…

Sabe, realmente me pego, muitas vezes, na saudade de coisas que não compreendo porque tiveram de sair da minha vida. Então reconheço que esta passagem minha por estas coisas, ou estas coisas todas por mim, é riqueza. E não tê-las vivido seria pobreza. E, sinceramente, me sinto rica por isso.

Olhando pra trás, tenho muuuuuitas histórias a contar. Um livro cheio! Páginas recheadas de emoções, sentimentos verdadeiros expressos sem vergonha nenhuma, naquela vivacidade, naquela espontaneidade que tantas vezes me condenou a incompreensão, ao mau julgamento de impulsividade demais num mundo que aprova a previsibilidade, a contenção de explosão de sentimentos, a sua simples sensação, a sua demonstração e admissão.

Desafiei o improvável. Nadei contra a maré. Fui anti-moda, anti-regras, um tanto rebelde a aceitar e me curvar ao comum, ao politicamente correto se isto representasse não fazer bem de verdade a quem convivo e me causasse um desconforto lá dentro de mim. Desacreditei que viver seja totalmente previsto. E por isso mesmo, tive o privilégio de viver coisas que jamais imaginaria anos atrás. Fui aceitando os presentes que a vida me deu. Gratuitamente! Simplesmente por ser assim, meio deste jeito, destemida com o diferente, o novo, que entorta o nariz se tiver de ver a vida como um quadradinho sem graça, que se repete dia após dia, sem mudar nada, mesma receita para todo dia, que não me dê brilho nos olhos, não me faça suar frio e ter calafrios na barriga de ver a frente algo que nunca vi ou fiz!

Não tenho a menor dúvida que foi só por isso que tantos improváveis me aconteceram. Se é que existe mesmo o improvável!!! Porque, afinal de contas, quem é que sabe mesmo, de verdade, o que pode lhe acontecer nesta vida???

Sim. Sinto falta de coisas que eu fazia. A despeito de tantas limitações que a vida me impôs. Mesmo com uma montanha de “nãos” a minha frente, fui sendo levada pelo coração que me dizia pra ir, ir e ir. Indo, fiz. Atropelando pedras. Fazendo delas, degraus. Pra muita gente pode parecer pedrinha. Pra outras, pedrão. Foram minhas pedras. Que me levaram ao deleite de ter superado, uma a uma, saboreando que a vida pode ser presente, se assim a gente se decidir.

Não tive preguiça. Fui aceitando a abraçando presentes. E, confesso. Tenho tido saudade disso, pois passei por um tempo de desacreditar que posso fazer tudo de novo. Mas bem lá dentro de mim, eu sei. Acredito! E quero me dar este presente.! Me dar uma nova chance. Porque a vida é um sopro. E o início é a cada manhã! Porque o fim está logo ali e a gente nunca sabe quando. E a melhor forma de ser grata à vida é abraçando cada dia como um presente seu. 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O não que é um empurrão!


-Filho, leva o Tufo fazer xixi?
-Não.
Daqueles bem redondos. Sem eira nem beira, nem fresta nenhuma pra margem de pedir de novo. É assim. Sempre. “Não” é não.

Parece ser falta de… Companheirismo? Não, não é.
Vez ou outra, em extrema necessidade, sai um sim. Quase naqueles casos de vida ou morte. Fora isso… Um redondo não!

Este não tem me feito um bem danado. Por causa deste NÃO firme e sonoro, nestes dezenove meses de reclusão, desde que me recolhi e me encolhi, alternando apatias, falta de vontade de ir, uma imobilidade que não combina comigo e não me traduz, mas que tomou conta de mim, não sucumbi ao sofá e não me afundei nele de vez.

O não foi o empurrão!

Juntando o não a este serzinho que depende de mim pra sair de casa, já que vai longe os tempos onde eu morava numa casa de portões e muros baixos, quando meu cachorro, tendo vontade de ir pra rua, pulava o muro, ou passava por baixo do portão numa fresta duvidosa sem fazer a menor cerimônia, ele apesar de tão independente pra tudo quando está solto, não tem como sair pra rua se eu não levá-lo. Enfim. Pode ser chovendo, pode ser 6h da manhã, meia-noite, frio ou calor de rachar, saio com ele. Melhor… Ele sai comigo. Ele me leva pra dar uma volta!

Não ter quem fique com dozinho, vá e faça por mim e ouvir um não, me empurra pra fora do sofá, de casa, da inércia. Vou lá fora pra rua, pro parque, pro lago, pro vale . Catar amora e comer no pé. Zanzar na grama. Fazer fotossíntese! Ver pessoas, outros cachorros ter conversas de gente que tem cachorro, conversa à toa e boa.

Ouvir não é um empurrão. Que me manteve no prumo e rumo. Como tantos que fizeram do eco de um não ouvido, o ponto de partida de ir de novo, ir além, ultrapassar, seguir e fazer acontecer.

“Não” não é uma porta na cara. O “não” é, para quem souber fazer, o meiavoltavoltaemeiadar para iniciar outro caminho. Ou, simplesmente, manter-se no caminho quando a vontade é parar.

O não pode ser aquela nota baixa que, de birra, fez a gente se matar de estudar só pra “esfregar na cara”do dito cujo do professor da época, um dez exibido na prova!

Ou o pénabunda no emprego, no namoro, que abriu a porta para oportunidades melhores, experiências melhores, pessoas melhores no caminho.


“Não” não é um apagão. Às vezes, é a dose exata pra se mexer no curso bom da vida. De ir fazer porque não há quem faça, ir fazer outra coisa, porque a anterior lhe foi tirada, de enxergar aquilo que você não via, não ouvia, não existia.

Como se diz, o”não” educa, cutuca, cavuca. É só uma questão de deixar de mimimi, de vitimismo, de umbiguismo e reagir.

O resto vem. 

domingo, 1 de outubro de 2017

Feito pipa


Em onze dias, meu niver!
Uma reta para um dia, contagem regressiva para algo que ano após ano, sempre comemorei.
Estanho, hoje. O niver passado,mudança de década foi tão esperado como todas as outras mudanças de década e, depois, abafado, recolhido e tão tímido para ser uma comemoração bem diferente da planejada por anos que está “décadaeumanoamais” me parece esquisita… Sem pré expectativa. Sem confete. Sem alvoroço. Avesso ao que me é natural nos meus aniversários.

O que acontece?

Acontecem muitas coisas. Ano passado foi um esforço tremendo para comemorar em meio a uma tempestade. Uma trégua imposta de fora pra dentro. Um tempo de bandeira branca hasteada por um dia. Afinal, era meio século pra comemorar.

Hoje, constato que este niver está se aproximando como todos os outros e eu, sem vontade alguma de comemorar. Isso não sou eu.

Onde estou?

Me perdi no caminho. No meio de tantos sacolejos de uma viagem na boleia de um caminhão. Como se indo de carona, sem ser dona do rumo. Indo, apenas. Pra onde o motorista levar. Pra onde a estrada chamar. Sem ter a mínima ideia de onde possa estar indo…

Bom? Ou ruim?

Enquanto escrevo, vou digerindo as palavras recém postas pra fora. Vômito? Saíram sem planejar. No início da primeira palavra, nem tinha ideia que seria isso pra hoje. Vômito. Aí, podem ser as duas coisas.

Ruim. Algo ruim lá dentro, um veneno, um engolido indigesto que o corpo está expelindo. Cuspindo pra fora.
A mercê. Viajando na estrada a mercê. Sem ser dona do mapa e do destino. Sem estar sentada no volante, como é meu costume estar. Esquisito. Gosto mesmo de ser dona do meu nariz. Traçar percursos e destinos. Passar pelo caminho com aquele gostinho de “estou indo” sabendo a cada centímetro aonde estou chegando. Viajar pela minha estrada sem saber aonde me leva é esquisito. Me parece que não sou dona nem do meu nariz, nem do meu destino. Não sou?

Bom. Vomitar é bom. É um mecanismo inteligente de defesa do corpo para se livrar do desnecessário, indesejável e que não faz bem.
Estar a mercê… É novo isso. Mas uma experiência totalmente nova e, vejo, necessária. Uma espécie de deixairpraver. De deitar no barco e deixar o rio levar. De descansar. De não ser tão certinha demais. (Sobre ser tão certinha,  demais : http://clicandoeconversando.blogspot.com.br/2017/06/tao-certinho-demais.html?m=1) 
De não ser tão pilota da viagem. De parar um pouco com esta mania de querer prever tanto o futuro. E, quem sabe, assim aceitar o que a vida manda. Relaxar. Porque a vida vai e traz. Independente de eu pôr a mão no volante o tempo todo, ela vai. É como se eu permitisse ir com um piloto automático que eu recriminava tanto! Dizendo que era falta de pulso em dirigir a própria vida. E posicionar-se e ter o desejo de destino. Mas que a vida desapressada de hoje me mostrou que é apenas um voo cego no vento, relaxar e me deixar ir na brisa. Sem medo. Sem me cobrar tanto. Nem o destino, nem o caminho. Um dia por vez.

Sinceramente, ainda não sei. Será um desplanejar necessário de uma vida disfarçada com cara de desplanejada, mas que me impunha um destino aprisionante??? Hein?!!!!

Deixa vir. Acho que é um retirar de algemas que eu nem enxergava. Dá trabalho ir sem metas, sem sonhos. Sem desafios, sem desejos, sem caminhos desenhados. Mas dá trabalho também ir o tempo todo com a adrenalina a mil. Com sonhos incessantes pra se alcançar. Eu não estou negando meus sonhos, nem muito menos desistindo deles. Estou apenas aceitando a efemeridade do tempo e de mim mesma. Para que o caminho seja mais leve. Pois andei carregando pedras demais! E estas pedras todas jogadas em mim, definitivamente, não são para serem levadas nos braços. Mas para, despejadas no chão, formarem a escada que vai me tirar disso. Como aquela velha história do cavalo caído no poço. Que o dono desistiu tanto do cavalo por achá-lo velho demais para se dar ao trabalho de resgatá-lo, quanto do poço por achá-lo já inútil. E decidiu enterrar cavalo e poço durma só vez. A cada pá de terra jogada sobre o velho cavalo para enterrá-lo vivo, ele sacudia a terra, na vontade de viver e punha seus pés sobre a terra jogada. Punhado por punhado. O final da história é presumível. Fez da cova a sua escada. Pra vida.

A vida, muitas vezes, pode parecer um poço visto do fundo. E conforme o quão fundo se foi, se está, menos luz se vê do lado de fora. Vai depender do que nos move, o desfecho. Tirar o peso das costas e pisar sobre ele. Fazer da carga a escada…

Por fim. Nem demais, nem de menos. Tempo de ir. Sem muita regra. Feito pipa. Soltar a linha. Fechar os olhos e flutuar…



Sobre o voo da pipa: http://clicandoeconversando.blogspot.com.br/2010/12/menina-que-amava-pipas.html?m=1

sábado, 9 de setembro de 2017

O avesso de mim


Quando aquieto, penso nas tantas fases, marés, revezes. São idas e vindas. Paradas. E tudo compõe a trama e o avesso de mim.

Engana-se quem pensa que no avesso, encontrará o meu contrário. Na verdade, o avesso é quem contém tudo o que preciso costurar, emendar, ligar fios e cores pra compor o meu “lá fora”! Do meu avesso dependo pra mostrar apenas o que quero mostrar. No meu avesso, escondo meus nós. É onde trabalho intensamente para que esteja perfeito o que eu tenha a oferecer de mim.


Meu avesso é onde eu realmente estou por inteiro. E se nele eu me esmerar em fazê-lo com tal zelo, sabem bem as bordadeiras, exceto pelos nós das emendas, é cópia do lado de fora. Não será um desenho feio, sem forma. Mas o esboço que permite ver o que virá para fora.

O avesso de mim sou eu sem cortes. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Muda o disco


Sou do tempo que ouvir música era de rádio AM. Ou de vitrola, ou radiola. É lá em casa, havia um móvel muito chic para a época, onde via meus pais colocarem discos de vinil para ouvir. E pude ouvir historinhas em disquinhos, também.
Quando o disco por algum descuido riscava, a agulha de tocar não conseguia mudar a volta. E tocava repetidas vezes o mesmo trecho. E quando se gostava muito de uma música só, ficava se colocando a mesma música toda hora. E diziam que ia furar o disco de tanto repetir.

Coisas daqueles tempos.

Tenho de me policiar. Porque cheguei ao ponto de me falar, a mim mesma:
  • Muda o disco!
A gente, se não se cuidar, gera uma repetição de assunto chato. Papo repetitivo. Disco riscado. Aí, é preciso perceber e decidir mudar o disco.

Problemas, todo mundo passa. Mas deixar que eles sejam o principal assunto das suas conversas, vamos combinar… Uma falta de assunto enorme. Chover no molhado. Parecer galinha da’angola que só sabe repetir “tôfraco-tôfraco-tôfraco-tôfraco…”

Eu já tinha a percepção. Mas quando via, lá estava eu, de noooovo, respondendo a um educado “tudo bem?” com a minha conversa fiada. Repetitiva e chata. De “coitada de mim”... Sério mesmo? Sério. Lamuriar dores, males passados, os destemperos da vida. E aí, o monstro só cresce. Infla e multiplica de tamanho. De tanto ser lembrado e falado, ganha uma importância que não tem. Bom mesmo é dar importância ao que tem importância! Lembrar e falar aos outros de coisas boas. Uma coisa puxa a outra. E ao invés de contar pela quinquagésima vez o que de ruim lhe aconteceu, conte tantas coisas boas que lhe aconteceram. Há muitas! É só afiar os olhos pra enxergar…

Ademais, você já deve ter cruzado nos seus bons dias com aquele tipo de pessoa que para responder a um bom dia, grunhe. Não dá um sorriso. Ou conversa apenas lamúrias…

Então. Eu percebi que nestes dias, este alguém era eu! E decidi mudar o disco.

Os problemas acabaram? Não.
Injustiças, fofocas, provações e privações?
Sempre existirão. Mas elas só ganham espaço e tamanho se a gente permitir.

Se nós mesmos agirmos como disco riscado que não muda a fala, a música, a cabeça da gente se enche da mesma frase e passa a repetir feito papagaio. E achando que só isso que existe.

O disco tem muito mais. Outras músicas. E tem até o outro lado pra tocar. Se for um vinil. A vida também. Mudar o disco riscado , uma necessidade. Senão, a máquina de tocar pifa.
Ninguém aguenta a mesma música rodando repetida sem parar. Se o disco não estiver bom, liga o rádio! 

sábado, 2 de setembro de 2017

No fundo, no fundo…


Porque lá no fundo, no fundinho você sabe o que há, o que quer, o que acredita, o que quer fazer…

Um oceano. Profundo. Que quanto mais você mergulha, mais se distancia da luz, mais escuro fica, te tirando a visibilidade do que há. Mas está tudo lá!

Gavetas. Socadas de objetos, papéis, cacarecos. Que acabam obedecendo uma ordem desordenada, mas lógica na cronologia de terem sido atiradas lá dentro. Você espia, timidamente, não vê, mas sabe que está lá!

Arquivos. Mil. De documentos, de fotos. Você lembra vagamente, alguma palavra, o assunto, a época em que foi feito. Porque foi feito. Então, sabe que está lá!

A gente trilha caminhos, semeia palavras e sorrisos, faz trocas, de conversas, de histórias, recebe água e alimento na forma do vivido. Retém o que faz bem. Elimina o que não acrescenta. E segue.

E lá dentro, vão se acumulando o que vai formando o alicerce de nós mesmos. Vem do berço. Arrisca passos fora. Se escancara, retorna, se recolhe. Amadurece. Às vezes, murcha. Desacredita poder continuar. Hiberna. Mas é um recolhimento natural para poupar energia. Como casulo. Que esconde num ovo, para transformar a forma disforme e desatraente que lá entrou. Para no silêncio, na surdina, no recolhimento, sofrer todas as transformações necessárias para, no momento certo, por uma frestinha de nada, iniciar a sua reestreia surpreendente.


Porque no fundo, no fundo de sua essência, nasceu borboleta, ainda que fosse vista como lagarta. E, no fundo, no fundo, cada um sabe como nasceu. O que lhe diz a alma. O que esconde no profundo de seu oceano. O que guardou na gaveta. O que suas memórias se recordam terem fotografado, ou escrito. E não há nada que abafe isso. Mesmo sem ser visto, está lá.

É a discordância ilógica entre o que se é e o que se faz que coflitua a nossa alma. Gera tristeza e frustra. Atrofia asas que foram feitas pra voar. Voos rasos ou longínquos. Não importa o tamanho do sonho. Mesmo porque sonhos não tem tamanho. Tem essência. Importa mesmo é reconhecê-los e buscá-los!


É preciso ousar e ser sincero. Escancaradamente humilde e sincero para, num certo ponto da vida, reconhecer os erros, os descaminhos, decisões mal tomadas e retomar a rédea da vida. E parar de ignorar o que existe lá no fundo, no fundo de si mesmo…

Fotos da galeria de Tales of Light - série da Netflix

Tá logo ali!


Tá logo ali. Só atravessar a porta e ir. Não precisa ser muito longe nem só um pouco longe. Pode ser no quarteirão ao lado, em volta da tua casa, a uma quadra, ou duas, um pouco mais. Pode ser que você chegue andando. Ou de bike. De carro. De transporte. Mas é preciso atravessar a porta.

Toda vez que chego lá fora e sinto o vento levantar meus cabelos, me lavando a face e a alma, me renovo. É um quê que tenho com o vento. Deve ser por ele ser invisível e ser tão presente. Por ser capaz de me causar a sensação de levar embora. Algo cá dentro que precisa ir, ao mesmo tempo que me traz bons ventos. A boa sensação de coisas boas chegando. Traz-me a sensação, também, de lavar a alma. Como aquele desenho de redemoinho movimentando as folhas secas no chão, como se bailassem, sem fim. Fazendo uma faxina lá dentro de mim. Girando, girando e levando.

O vento consegue provocar um movimento em mim que se alterna de manso e delicado, até um vendaval de emoções. Traz recordações. Leva o que me pesa. E me leva junto a flutuar num passeio inocente, inconsequente, despretensioso, por fim.

Toda e cada vez que venço a inércia de ficar parada e quieta dentro de paredes e venho cá fora, não entendo como não venho antes, venho mais cedo, venho mais vezes.
É de graça. É logo ali, de casa. Um “lá fora” que tem em todo lugar. Basta ir.
Um espaço verde com árvores, sol se quiser, sombra se quiser, espaço pra andar, brincar e ficar à toa, de cara pro vento.
Nesta hora, compreendo, tão importante que é ter as pernas e braços amarrados, vez ou outra, pra ser obrigada a parar. Nestas paradas, sem pressa de ir, sem pressa de passar e chegar, sem ter o tempo todo preenchido por coisas a fazer, aprendo o desapressar do tempo. Quando ele mais rico se mostra. Simples e somente porque pego a pressadotododia, a pressadavidatoda e prendo ela em casa e saio sozinha. De cara lavada. Sem olhar a hora. Olho o relógio do sol. Olho que o céu está azul. Olho que o vento passa brincando e mexendo as árvores e ele me ensina uma lição final neste dia.


O vento não precisa ser visto pra existir. Mas é inegável que exista, por ser visto pelo que provoca por onde passa. A sua existência não é vista. É sentida. E é o que ele faz pelo caminho que não deixa dúvida de estar bem aqui.

O que tá logo ali?
Pode ser que seja só o vento. Pode ser que seja o tempo. Aquele que você não sabia quando chegaria. Pode ser que seja uma brisa que te traz, ou o redemoinho que te desfaz. Pra se fazer de novo! Pode ser que seja a oportunidade que está ali fora te esperando, já cansada de esperar você que nunca sai!!! Pode ser que seja a nova conversa com nova pessoa. Pode ser que seja a velha conversa que nunca teve fim. Ou pode ser que seja o caminho do qual você saiu pra descansar um pouco. Ou seja a bifurcação que vai te dar a opção de escolher pra onde vai seguir.

É preciso atravessar a porta. Ir. Porque somos nós mesmos que trancamos a porta. Portas que nos tiram a vista de tantas coisas simples, corriqueiras, ao nosso alcance, que nos permitem beber de felicidade em doses pequenas que não jorram demais, nem se esgotam depressa demais. São coisas muito simples e que reabastecem a gente de energia. Sair e sentir o sol, o vento, o frescor da sombra, mexer o esqueleto de leve, tomar posse da vida. Talvez, o primeiro passo a se dar para ser grato por ela.


Destrancar a porta que te prende num mundo onde você se esconde e se priva de viver. 

domingo, 27 de agosto de 2017

Os res e rés




Estou aqui matutando… O que me faz travar a vida? Ironia do destino, há anos minha coluna não chiava. E quando digo chiar, entenda por travar!!!

A coluna travou. E a vida minha anda travada também. Devem ser sinais! Pra me chacoalhar e acordar.

Faz tempo que não escrevo. E escrever estava sendo um prazer enorme que não entendo o porquê não REcomeçar. Se faz tão bem, tenho de manter comigo! Então, matutando aqui, como há dias tenho feito, tentando me dar motivos para voltar a escrever, pensei logo no “re”. De REcomeçar. De tudo que representa REtorno. Ai me veio o “ré” à mente. E não me soa bem.

Ré me sugere voltar atrás. A coisas passadas, acontecidas. Parece contraditório, já que aguardo poder recomeçar coisas que me faziam bem e me sinto vazia sem elas. Oca. Mas o que busco e desejo é uma releitura que me permita uma segunda chance, sem os mesmos erros. Entende? Não é voltar ao passado, ao vivido. Mas poder colher dele as flores que me perfumaram o caminho. Mas deixar pra lá os espinhos…


Nem sempre estou bem. Costumo escrever quando estou bem. Quando faço descobertas geniais! Ou percebo simplicidade plena que faz bem. Que me permitem extravasar alegria, contagiar de bem a quem lê. Por isto, relutei em escrever neste período. Por isso sumo nalguns momentos. Por me sentir meio sem assunto. E, então, escrevendo agora, percebo que esta mania de super herói é bobagem. Eu sei que posso atingir pessoas que se animam pela leitura de boas histórias, de superação e super ação. Mas a tristeza, o desânimo, vem pra todo mundo. A falta de assunto. A solidão. O vazio. O oco. O eco batendo e ressoando lá dentro… Ecoecoecoeco…

Me desnudo. Há dias em que mesmo estando o céu azul e lindo, sinto faltando algo. Há mil coisas a fazer e vontade nenhuma em fazê-las. Tenho certeza que este silêncio faz parte da melodia. Do diálogo habitual onde um fala, o outro cala, para poder ouvir o que o outro quer falar.


Então. Cá estou. E aí, céu azul, o que quer me dizer?

terça-feira, 4 de julho de 2017

Na carona doutros sonhos!


Duas coisas desegoístas: caronas e sonhos.
Carona é quando você pode ir sozinho e resolve levar alguém. Sem nada em troca. Sem obrigação. E divide o caminho.
Sonhos é aquilo que é do outro, mas que contado, vira um pouco seu também. E vice-e-versa!

Todo mundo tem. Sonho.
Todo mundo de alguma forma pega carona no sonho de outro alguém.
A arte faz bem isso. Numa música, num filme, numa novela, numa peça de teatro, numa dança que você assiste. E na própria arte de bem viver. Mexe lá dentro. Aguça e faz coçar. E a carona é dada.

Já peguei várias caronas nos sonhos de outros. Ouvia, assistia, lia e de longe participava.

A gente passa por estágios, sabe? De ver no outro achando loucura. De se falar que nunca conseguiria. De ter vontade. De duvidar de si mesmo. E de se coçar…

Então, a primeira porta que se abre é espiar lá fora e ver tantos sonhos vividos que começaram parecendo impossíveis. Você ouve as histórias e começa a olhar pra si mesmo. Bem naquela pergunta “Cadê eu?” e começa a se perguntar:

-O que era mesmo que eu sonhava?

Ou outras perguntas cliché que fazem pensar…

-O que quero fazerconhecerantesdemorrer?

Não importa a pergunta feita a si mesmo. Importa a resposta.

O mais legal disso tudo é que não saberia nem nominar tanta gente que me deu carona! E gostoso é, também, oferecer carona um pouco nos meus. Porque a gente se descobre tendo espaço na carruagem da gente pra levar quem precisa um pouco de companhia pra acreditar em seus sonhos e descobre muita, mas muita gente de coração gigante dividindo suas histórias que nos fazem pensar, acordar e ir. Pro nosso caminho!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Mas você vai sozinha?


Pode ser homem. Pode ser mulher.
Pode ser jovem. Pode ser velho.
Toda vez que alguém resolve fazer algo que foge às regras, ou quebra um caminho já esperado ouve esta frase:

-Mas você vai sozinho?

Quem vive colhendo amigos pelo caminho, nunca vai sozinho. Espírito fazedordeamigos faz amigos por onde passa!
Uma experiência diferente, de apego-e-desapego não por não ter importância quem por seu caminho, passa. Mas por haver espaço pra todo mundo!

Quem vive sem economia a vida, tem lembranças de sobra pra lhe fazer companhia, se um dia, noite, semanas passar falando sozinho por falta de companhia no caminho.

Coração de porteira aberta nunca fica trancado pra não entrar gente. Pode até sair quem não faz mais parte deste seu mundo. Mas sempre entra quem faz! Porque porteira trancada nunca prendeu quem já não faz parte. E aberta sempre é passagem para possibilidades…

Se eu vou sozinha?
Sim e não.
Aprendi a gostar das duas coisas e desfrutar o tempo de estar só é não estar.
E nas duas aprende quem assim quiser!

Passar da linha delimitadora e imaginária do sópodepassarquemnãovaisó é revigorante! Imensamente perturbador. Esquisitamente novo. Para sempre renovador!

Você se descobre capaz de muita coisa que nem sabia ser capaz. Descobre que cada dia reserva uma boa surpresa e bons motivos para gratidão. Que mesmo havendo boas histórias passadas, há muito a se viver se você não parar. Que o desconhecido não é um bicho de sete cabeças. Não morde. É que às vezes os bichos que mordem não estão do lado de lá. Mas do seu próprio lado segurando a cordinha pra te protegerem, pra te terem, pra te prenderem e você, sem ver, vai deixando o tempo passar…

Algumas coisas gostaria, sim, de ter uma boa companhia ao meu lado pra dar boas risadas, gostar da prosa e do silêncio, do fazer de tudo e fazer nada, achar difícil, achar fácil e ir passando cada dia. Mas estar sozinha é uma escola de você conviver com sua própria companhia. Aprender a perceber seus erros e seus acertos e querer melhorar e melhorar!

Afinal, tantas viagens iniciadas solo têm de ter um porquê! Não importa quantos quilometros, quantos dias, quantos meses, quantos anos, todo mundo vai na verdade naquela viagem pra dentro. E esta, só você pode fazer...

sábado, 1 de julho de 2017

A pulga que me levou pelo Vale Europeu


A estrada chama.
Mas tem de ter uma chama lá dentro pra te levar.
Chamo de sonho.
Aquilo que atiça, incomoda, feito pulga atrás da orelha... Não pára nunca enquanto você não sai e faz!
Mas só sonho não basta.
Tem de ir!
Talvez, não pensar muito não. Se dá, não dá. Se é perigoso, arriscado, se pode acontecer algo de ruim.
Acontecer coisa ruim, acontece até dentro de casa, no sofá. Como infartar.
Se for pra morrer do coração, que seja de tanto usá-lo, de abusá-lo, de fazê-lo bater muito e rápido de muita emoção!!!
Nunca fui muito de ficar debaixo de um teto, esperando a vida passar!
Sempre fui mais de passar pela porta, sem ter muita idéia do que havia do lado de lá!


Quando ouvia falar do Vale Europeu, por amigos meus, há dez anos atrás, nem me imaginava sobre uma bike. Que dirá passando por trilhazinhas no mato e sozinha.
Quando comecei a ficar atrevida, brilhar os olhos, descobri que acreditar é o primeiro passo pra ir além.
Eu podia ir! Nem que fosse sem ninguém!!!

Então fui. Só fui.

Não tinha a menor idéia como era pedalar com alforges. Tentei com o clipe da sapatilha. Não gostei. Pegava no alforge. Enroscava. Arranquei fora.


Me contavam como era a estrada. Subidaidaidaidaida...
Sem fim.
Pedra pedra pedra pedra pedra. De resbalar e cair.
Que tinha cachoeiras lindas. Rios pra se jogar sem dó!
Que tinha sempre gente acolhedora, boa de prosa pelo caminho...
Eu imaginava. Ria. Queria.

Fui.

Nenhuma imaginação por mais fértil que seja iguala ou ganha o ir-e-ver! Nunca nada arrancará de mim tudo que vivi e passei.

Pode parecer muito pouco perto de viagens que duraram anos, percorreram países, continentes. Mas é a minha viagem. A que eu fiz. É SÓ por isso, ela é a melhor viagem pra mim!!!


Não importa o que você já tenha feito. Importa o que queira fazer! Importa, um dia, olhar pra trás e saber que fez! Importa olhar pra frente e vislumbrar muito mais! Importa olhar no hoje e se enxergar naquele que sinta e saiba ser o seu lugar. Senão, não vale à pena!

Lá no ontem, eu não tinha ideia, nem imaginava, nem saberia o que faria hoje.
Hoje, não tenho ideia nenhuma do quê acontecerá daqui a umas horas, nem daqui a décadas. Mas desenhar o rascunho dos meus sonhos, acreditar que posso, agir para que eu os alcance, me dão uma vontade tamanha de não desistir nunca de acreditar que dá. Da sim!!!


Ter ido me fez escrever mais alguns capítulos da minha vida, de próprio punho, sabe? Sem pedir dublê de corpo, de coração, de alma. Vivi tudinho, eu mesma, intensamente...

Esta viagem, eu escrevi. Não publiquei na época. Não entendia o porquê.
Descobri depois.
Ela serviria pra convencer pessoas que não se acreditam capazes de ser, essencialmente, sinceramente, genuinamente o que são.

A primeira da fila????

Eu. Eu mesma.
Porque às vezes, os olhos perdem o brilho, a alma se cansa e a gente quase desiste... E reler o que sou, de verdade, com toda sinceridade que escrevi, me fez reacreditar... Em mim!


Estou no processo de finalização deste livro. Desta historinha maluca de ir sozinha pelo Vale Europeu. Tenho de contar pra todo vento!!! Porque quando a gente descobre algo muito bom de fazer, quando a gente descobre que escrever esta boa prosa faz parte do "espalhar pulgas atrás da orelha" de muito mais gente, a gente percebe que tem, sim, por a cara a bater, escrever, contar pra todo mundo!!!

É o que pretendo fazer!!!

Circuito do Vale Europeu - Eu e Deus.
Uma mulher, uma bicicleta, uma viagem