Vamos conversar?

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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

As coisas mais importantes não são coisas!




Essa alegria, ninguém me tira!


Muita coisa é roubada.
Justamente. Coisas são roubadas.
As coisas mais importantes na vida não são coisas...

É um mistério esta máquina de andar e mexer da gente! Faz, faz. Necessita uns ajustes. Fica com peça gasta. A gente conserta. Às vezes, substitui. Cria ferrugem e até bolor!


Envelhece.

Máquina boa pra ser tratada com todo amor. E cuidado. Cuidar da dor. Máquina preciosa que nos carrega pela vida inteira. Que redundância! Quem não sabe disso? Hummmmm....

Aquela velha e conhecida historinha...
Ser jovem, ter saúde, ter tempo, não ter dinheiro.
Ser adulto, ter saúde,, ter dinheiro, não ter tempo.
Ser velho (ou mais idade! 😁😎😄) ter dinheiro, ter tempo e não ter saúde.
É fato. Mentira. Ter vontade muda tuuuuuudo!

Nesse mundãodeMeuDeus, perambulando por aí, vejo gente de toda idade. O que os faz ir? A despeito de toda dificuldade?

Vontade.


Ontem foi com uma Suiça que conversei. Em portunhol e inglês. Tem grana? Não. Tem vontade. Se precisar, arruma carona, arruma quarto por vinteecinco pilas em Floripa, aplica shiatsu na praia mesmo, com a gente deitada na canga, (lógico que fiz e até cochilei) e uma sessão já paga a diária do camping de hoje!

Tem vontade. Tem dificuldade. Vai. Enfrenta o que vier. E faz!


Já vi, na Europa, muitos casais de cabeça branca com suas mochilinhas, tênis no pé e... Vontade no coração! Passos mais lentos, costas mais arqueadas, mas pra que andar com passos apressados, mesmo?

Já vi gente que não troca férias por dinheiro nenhum no mundo. Trinta dias é sagrado por ano. E fazem milagres... Milagres em viver cada respiro dos trinta dias. Milagres que os trinta dias de desapego a dinheiro extra faz na vida da pessoa. Dinheiro a gente ganha, gente gasta. Todo mundo já ouviu isso. Ganha x, gasta X. Ganha y, gasta y. Lei da matemática. Lei da matemática, nada! Lei da maquinada! Que te transforma em máquina de fazer dinheiro pra alguém. Que não sei quem. Já que você não gasta com você!


Não estou falando de viagens caras.
Não estou falando de ir tão longe assim.
Não estou falando de maluquices. (Se bem que algumas, fazem muito bem! Quem não?)

Estou falando de cultivar o que não são coisas! Desapego ao que se vê. Se compra. Se rouba. Apego ao que faz bem!


Viro criança. Literalmente, viro criança! Me dá uma bicicleta e um à frente pra ir, que vou. Fico faceira de sentir o vento no rosto e sentir o suor dizendo que o corpo está trabalhando. De sentir que estou fazendo ele, o tempo, valer à pena. De degustar a liberdade que ninguém me deu e não comprei. Apenas abracei. Porque liberdade não é produto de mercado. Nasce com a gente. E quem a tranca, somos nós mesmos. Sempre dizendo a ela... "Agora, não! Nao tenho tempo. Estou ocupado. Tenho muitas coisas importantes pra fazer primeiro!" E prefere ser escravo. De si mesmo. De suas escolhas e ambição. De sua cegueira e sua traição. A traição aos seus anseios vitais. Dentre os quais, os SONHOS. Estes que nos mantém vivos. Estes que nos dão motivos para não desistir.

Não tenho mais liberdade que ninguém. A vida de cada um é diferente do outro. Alguns tem filhos pequenos. Alguns, pais idosos para serem cuidados. Alguns, pouca grana. Alguns, estes todos e mais alguns, MEDO. Quando a gente opta por fazer aquilo que gostamos, invariavelmente, pensam que a vida da gente é mais fácil. Atrelam liberdade a isso. E justificam sua falta de ação nisso. "Oooo vida dura, eu tenho!" Não leva a lugar algum pensar assim. Muito menos se iludir que a vida do outro que faz é mais fácil. De ninguém é mais fácil. É diferente! O que muda, é o olhar...


Ahhhhhhhh.... O olhar... Casado com a vontade, transpõe montanhas... Atravessa oceanos... Não leva dinheiro, Nem roupas de marca na mochila. Mas ganha experiências vividas, simplesmente por optar. Este tal de livre arbítrio que tanta gente deixa pro outro fazer por ele.

Não tenho dinheiro.
Não tenho tempo.
Não tenho saúde.
Não tenho coragem.
Não sei fazer.


Dinheiro. Taí tanto jovem fazendo, trabalhando no caminho pra fazer dinheiro. Esta suiça. Um amigo cicloturista que faz artesanato pra vender. Que pega trampo esporadicamente pra fazer renda. Outros amigos que vão e não tem preguiça de arrumar trampo não! Seja no que for.
Dinheiro. 2 Já pesquisou sistemas e aplicativos que te oferecem viagens mais baratas, acomodações mais em conta e nem por isso, menos confortáveis ou charmosas? Cinquenta pilas pro meu bolso num lugar aconchegante como estou. Onde pra tudo, vou de bike... Sem gastar um tostão de combustível. Faço amizades. Não me sinto só, se não quiser. Essa mocinha suiça tem pago entre vinteecincoetrinta pilas por dia. Oferece seu serviço, passando de guarda-sol em guarda-sol, também faz traduções de espanhol para francês e bem poderia fazer ainda para o alemão, inglês, italiano, se quiser. Pois domina todas estes idiomas... 😲🤓


Tempo. Já vendeu férias? Já se programou pra não precisar mais vender? Já usou bem seus finais de semana? Já levantou do sofá, já largou o celular e todas as redes sociais desligadas por alguns dias pra sair de dentro da caixinha e ir viver? Tem gente que na lápide terá de por o celular pregado em cima e constar... "Aqui jaz..."


Saúde. Vai com o que tem. Pode ter certeza. Vai piorar... Não é pessimismo barato. É fato. A curva da vida é ascendente. Topo. Descendente. Inevitável. Pra quem pretende viver até os cem anos ou mais. Off course. Dá pra melhorar cada fase. Ter qualidade de vida. E o principal: parar de se lamuriar pelo que não tem e usar bem aquilo que ainda tem. Porque logo, não tem mais! 🤪🤭😬🙄😜😂 Ao invés de se esconder na dor, vai com dor. Faz o que dá. Garanto que sair da inércia, botar a endorfina pra funcionar, vai trazer mais bem estar do que mais dor. Que vivenciar coisas novas, dará mais prazer que desprazer. E que você vai encher a sua linha do tempo de VIDA. Ao invés de DESvida. Na descida. Pode crer!


Coragem. Ahhhh... O medo... Que ata as pernas. Que paralisa. Que inventa monstros onde não tem. Coragem só se ganha no caminho.
O medo é um castelinho criado no mundo do fazdeconta, botando medo na gente, daquilo que nunca existiu. Não adianta se basear no "E se...." SE é condicional. Algo que pode ser e pode NÃO ser. Basear suas escolhas e sua vida em algo que não é real é, no mínimo, esquisito, não?
Coragem é como tsunami. Um cisco o inicia. Imperceptível quando nasce. Um monstro quando acontece. Derruba tudo no caminho!  Não é que coragem tenha de ser destrutivo, destruidor. Mas a coragem cresce porque fez o primeiro movimento. É o primeiro movimento que todos precisam fazer!


Por fim. Não sei fazer. Quem o sabe? ! Só se aprende a fazer, fazendo.  A vida só tem graça por ser uma caixinha de surpresas. Observar a natureza do nascermorrer, nos mostra que aprendemos para sobreviver! Chorar. Pedir. Fome. Sede. Dor. Ganhar independência ao se mexer para ir alcançar. Um brinquedo, a mão da mãe. O engatinhar. O andar. Então... Onde foi que você se perdeu? Onde foi que desaprendeu a andar?

De todas as desculpas esfarrapadas, escolha todas pra jogar fora. Escolha ir.

As coisas mais importantes não são coisas!


terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Fazendo nada. Nadica de nada



Já experimentou? Não fazer nada?
Mas antes de responder, é preciso deixar bem claro uma coisa. O seu fazer nada, pode ser o meu fazer tudo. E vice-versa.

Abrir mão daquilo que você sempre faz, pra não fazer, absolutamente, nada do que escolheria fazer pode ser um martírio. Ou pode ser o início de um caminho novo.

Estas minhas férias, bem poderiam ter o nome de filme, no estilo “Férias Frustradas”. Mas com um outro olhar, pode ser “Férias Inusitadas”.

Olhe só onde vim parar. Quintal de casa. E aceitei a reviravolta fazendo do velho, o novo.


Santa Catarina, embora não seja meu lar de verdade, é meu lar da vontade. Do desejo, do coração. Conheço feito palma da mão. Uma boa parte e, que bom, ainda tenho muito a explorar


Depois de mirar o Chile, Argentina, a travessia de SC de bike e ir explorar de 4x4 o centro-oeste, vim pra SC como o filho que à casa torna. Totalmente avessa a planos, a metas, a treinos (como já fui, tanto, tanto) sem expectativas projetadas e aberta a cada dia inventar algo novo. Um dia de cada vez.


Quando a gente não tem expectativas, o que vem é muito bem-vindo. Cada movimento, um ganho. Cada nova conversa, um aprendizado. Por menor que seja o passeio, traz o vento e no vento, coceiras de pensamento.


Explico.

Quando eu era a Susi atleta, uns dias em Floripa seria um deslumbre fitness de correr trilhas, girar a volta inteira da ilha de bike, subir morros, suar até cair! No bom sentido! (Sem cair, pleeeease!)




A Susi passeadeira, chegaria cedo no local de pouso e partiria cedo pra algum lugar. Numa ânsia desesperada de ir ir ir. Sabe lá pra onde. Mas ir.




A Susi Cicloturista, nem viria de carro. Chegaria de bike. Passaria, pararia, obviamente. Mas teria os olhos noutras paragens, logo mais. Ah, sim. Cicloturistar pela ilha, ainda é uma boa possibilidade. Mas, mais opção do que obrigação.



Entende?

É por aí que quero chegar…

Acho que todo mundo, ou quase todo mundo passa por estes ciclos. Descobrir o que gosta. E decidir começar a fazer. Até aí, há os dois lados. Os que começam e os que esperam a vida passar. Achando, de certo, que realizações caem do céu, diretamente no sofá!

Quando se descobre e se começa a fazer, há também os dois lados. Os que fazem diboinha. E os mais vorazes. Que não sabem fazer nada de pouquinho. Tão gulosos no fazer, como os gulosos no comer, se empanturram. Exageram. Querem a toda hora. Só querem isso. E… passam a fazer o tempo todo.

Se escravizam!

😱😱😱😱😱😱

Mexi em vespeiro. Não estou jogando pedra em ninguém. Sou eu mesma. E,off course, vista a carapuça quem quiser…. 👀😳🤪😜🙋🤦

A linha tênue entre….

Fazer por prazer & Obrigação

Divertir-se & Escravizar-se

Escolher & Piloto automático

Passear & Passar

Abraçar o bem que vem & Reclamar do que não vem.

Ixi. Caraminholas brotando! Cabeças coçando. Se perguntando: o que eu faço demais? O que é aquilo que só faço aquilo? O que me era prazer é agora é pura obrigação? No que me divertia e agora é no piloto automático? Eu passeio? Ou só passo? Pela vida?

Tive estes clics no tempo em que corria e observava. Outros e a mim mesma. Correr tem de ser leve. Sorrindo. E eu via pessoas com cara de sofrimento. Rugas na testa, entende? Eu sei. Eu sei. Algumas vezes, o desafio é tão gigante, a dor tão grande, que o corpo chora de dor. No caminho todo. E, ao final, se derrama em choro, em prazer, em gozo. E faz feliz.
Esta cara feia de sofrimento não vale. Porque só precede, tão intenso quanto o sofrimento, um prazer surreal. Falo de caras de sofrimento. De desprazer. De fazer algo que não se gosta. E continuar. Simplesmente, por estar no piloto automático…

Quanta gente está!...🤷

Vou voltar ao assunto. Faz o que gosta. Faz demais o que gosta. Vira um automático semsalsemaçúcar.

Tá na hora de parar. Mudar o jeito. Ou o feito, ou o efeito. Zerar. E neste caso, mais que recomeçar, um começar algo novo.

Era pra eu estar no Chile!
Na Argentina pedalando!
Por SC, atravessando!
Nas Chapadas, desbravando.
Jalapão… Não?
Não.

Nada é por acaso! Clichê. Mas vamos viver?
Vivê-lo. Ele! O acaso que veio sem ser chamado. Enxerido, sem ser convidado. O que ele me trouxe?





Trouxe uma casa linda, mas tão aconchegante, tão bom papo com as pessoas, que de defeito, achei este. Casa tão gostosa que não consegui sair. Prosa fora, tão à vontade, que já peguei a rede de limpar piscina e passei umas horinhas à toa (este tal do fazernada!) falando nada e falando tudo! Almantei. O nosso velho almoço-janta dos nossos dias no camping quando as crianças eram crianças! Fui convidada pra beliscar salada, fiz macarrão de acampamento, aquele, padrãozinho, macarrão-molho-milho! Juntamos tudo. Me fartei! De alimentos. Para corpo e alma! Um desplanejado momento, melhor que a encomenda.





De quebra, final de tarde, peguei a magrela, nem luva me lembrei e saí. Vento contra na ida, ventonacaaaaaaraaaaa… A liberdade que adoro de parar quilhões de vezes para fotografar. Sim, até selfie tirei. Eu que, já tanto critiquei. O sóselfie. Mas me deslumbrei com o caminho, o sol caindo no mar, as casas de pescador. E, aquelas minhas típicas paradas e voltadas. Quando vejo uma foto me chamando para acontecer. Um trapiche longo, o sol na ponta, gaivotas donas do pedaço, nada, nada demais. Só fui. E brinquei um monte de fotógrafa. Como faria quando criança. Como faço, por virar criança! Ainda ganhei um amigo de passagem, austríaco, pra treinar o meu inglês! Adoro isso! Conversar em outra língua, parece bobo o que vou dizer, é a prova real destes mundos paralelos que desconhecemos. E que podemos! Ir e conhecer.

Na volta, vento me empurrando pelas costas, sorriso largo no rosto, fui pra casa feliz. Casa. Esta que adoto, me adota, que tenho pra onde ir.

Dia em que não fiz nada. Nadica de nada!

Será?



segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O Pré Caminho


O Pré Caminho



5/8/18

Hoje começo, de fato, a parte mochilão! Desmamei do aconchego e conforto da casa da Cris, devido ao calor extremo destes dias, onde o mais sensato foi ficar recolhida à sombra do que já iniciar a longa caminhada que me espera!


Foi uma convivência gostosa! Passar estes dias com minha amiguinha de infância, conhecendo os encantos desta região, relembrando nossos tempos de meninas, e tantas belezas naturais e as construídas há tantos anos atrás. Castelos. Cidades. E observar ruínas ou casas e igrejas mantidas através dos tempos.



As temperaturas giraram em torno dos 45 graus à sombra. E a ideia de chegar em solo europeu e iniciar o Caminho já na sexta feira teve de ser abortada, o que não me chateou. Fazê-lo será muito bem-vindo, se acontecer. Mas antes do caminho, há muitos caminhos a desfrutar…


Quinta-feira foi dia de passeio pela região. Parques municipais, castelos medievais e a inusitada experiência de comer um prato típico português… Caracóis!



Quando o dia parecia já ter terminado, Guilherme, esposo de minha amiga nos levou às cidades vizinhas onde havia o Castelo de Torres Novas que é aberto durante o dia com entrada gratuita. Uma construção imponente, conservada, que nos remete a uma viagem no tempo ao passeamos ao seu redor por estreitas passagens pela muralha que o rodeia. Adentrar, infelizmente, não foi possível neste momento, devido ao horário. Mas a rápida passagem por ele já valeu muito à pena.
O Rio….. ladeado por praças, que corta a cidade, convida moradores e curiosos a permanecerem por perto nos restaurantes e bares próximos. A sensação de estar perto da água, somente pelo barulho que se ouve da cascata já proporciona um desejado frescor nesta noites tão calientes. E terminamos o dia em casa, já passado da meia noite.


Ao dia seguinte, estava reservado um passeio que logo ao descer do avião, minha amiga me convidou, perguntando como eu estava de agenda nesta viagem. Livre, eu respondi! Estou com um abecedário inteiro de planos e opções de caminhos. Com ideias, mas sem correntes. Ela tinha em mente, irmos à piscina de Castelo Branco. Distante cerca de 100 km de sua cidade. Não poderia ter havido passeio melhor! Saímos no final da manhã e pude relembrar meus tempos de picnic com meus filhos. Passamos num mercado, compramos frango assado, frutas, pães, água, chá e munidos, chegamos à piscina. Como nos preenchem ricamente momentos que parecem ser tão simples! Alternar pulos na água, refrescar-se nela, na ducha e à sombra das árvores lá hora do lanche. Comer com as mãos, sem o menor constrangimento. Deliciosamente! Observar as pessoas, as famílias. Enquanto fugíamos o valor extremo de 45 graus…


O final da tarde ainda me presenteou com um passeio pela região de Vila Velha do Roncão. Uma formação rochosa às margens do Rio…. que, conforme tem descrito numa placa informática à sua frente, na margem de cá do rio, tem uma aproximação da partes que a compõem, estreitando a fresta entre elas!
O dia terminou preguiçoso, eu cochilando dentro do carro.

O sábado foi dia de pesquisas. Comecei a pensar em planos A, B para fugir do calor extremo e do risco de incêndio. O Caminho ainda estava em suspenso. Caminhar por dias sob um sol estarrecedor não seria nada sensato. Arriscar-me a passar por áreas com riscos de incêndio, sabendo o quão graves são em Portugal, também não fazia parte dos meus planos. Comecei a pesquisar o litoral.
Pelo Google mesmo, percebi um local chamado Peniche. Carol, filha de minha amiga já havia visitado e também feito a travessia à Ilha, a Reserva de Berlenga. Hummmmmmm… Parecia ser interessante a ideia! Fiz uma pré reserva pelo Booking. Anotei as possibilidades. Enrosquei no acesso por ônibus. Teria de fazer toda a volta por o Lisboa. Gastaria horas, agora de ser distante apenas 100 km. Deixei de lado.

Saquei plano B. Serra da Estrela. Altitude combina com frescor. Clima ameno. Me pareceu uma ótima ideia. Pesquisei locais. Li comentários sobre o que ver na serra. Gostei. Pesquisei hospedagens e, bem no estilo casas de montanha, vi uma vasta oferta de lugares super charmosos, aconchegantes para ficar. No entanto, a grande maioria já reservados. Quando, finalmente, encontrei, num valor legal, fiz o contato com o proprietário para saber se eu poderia ir sem efetivar a reserva, pois este seria com taxa de cancelamento, caso eu não conseguisse chegar. Para o meu imenso espanto e um certo desapontamento, ele me respondeu que não era nada aconselhável ir lá, pois havia alto risco de incêndio!

Estaca zero.

O dia foi se arrastando preguiçoso, um calor insuportável lá fora. Passamos o dia inteiro dentro de casa para fugir daquele bafo quente que pairava no ar e parecia subir ainda mais quente do asfalto. Lá pelas tantas, Cris teve uma ideia genial. Havia um auto carro, nossos ônibus, particular aos domingos que levava num preço bem acessível e direto, sem paradas, portanto, em torno de uma hora apenas, até Nazaré. A famosa praia das ondas gigantes! Bingo! Decidido o que fazer. Retirei do mochilão poucas coisas para passar o dia e retornar no mesmo. Saquei a mochila de ataque e feliz da vida, tinha em mãos o que faria. Pesquisando as possibilidades de passeios e transportes, vimos que haveria tapete fácil até Porto. Isso poderia casar à ideia inicial de prosseguir do litoral, em direção ao norte para a região de Porto e, quem sabe, ao início do Caminho. Caso fosse interessante o litoral, levando meu mochilão, eu teria a opção de ir até Peniche, que era a ideia inicial e conhecer um pouco da redondeza. Fiz a pesquisa. Sim! Consegui manter a reserva inicial de pernoite em Peniche. Agendei a travessia de barco para a Reserva de Berlenga. E comecei a desenhar o caminho. O pré caminho.

Refiz a mochila. Juntei tudo de novo. Fechei de lado a malinha laranja que vai guardar os excessos de bagagem e as roupas de frio com as quais vim do Brasil.

Cá estou. A caminho do litoral do lado de cá do Atlântico. Por dez euros ida-e-volta, se quiser, rodando cerca de 50 km para iniciar o desmame tão gostoso do aconchego do lar da Cris. Sozinha. Sozinha, não! Eu e minha mochila.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Tem de rir pra não chorar...


Se eu contar, ninguém acredita. Amigos velhos já disparam “Dinovo?” “Não acredito!”. Amigos novos, rapidinho já se acostumam.

O número de vezes que eu me machuco, Caio, viro o pé, rompo ligamento, tendão e ultimamente, corte bobo  fundo em joelho que demora mais de mês pra cicatrizar e mingua planos de viagem de bicicleta.

Aquela frase “aprendendo a rir de mim mesma” serve bem pra mim e me acompanha. Junto desta: “Tem de rir pra não chorar!”. Perfeita.


Feita a arte, a não arte, desastre tem de virar motivo de risada. Resta o quê? Chorar não adianta. Reclamar só piora. Mal humor pra quê!

O meu histórico de machucadeira é louvável. Faz parte de mim. Já chorei um bocado por isso. E não vou dizer que não choro ainda quando acontece. Tem um misto de dor física e dor emocional. Porque machucar, geralmente, está ligado a uma parada abrupta e obrigatória de algo que ia fazer. Que requer um certo preparo físico, uma boa dose de loucura (esta que ainda tenho de sobra!) coragem e vontade de ir (estas, ainda tenho um bom estoque…). E toda vez que me machuco, algum plano meu vai pro espaço. E, resignada, eu fico quieta, pra recuperar e entender o porquê.

Menina, menos. Menos, menina!


Só pode ser. Aqueles lances de hora errada, lugar errado, sabe? Prefiro pensar assim: hora certa, lugar certo, pessoas certas, tudo a favor. Nada é por acaso. O que tem de acontecer, acontece. Caminhos não se fecham. Se abrem. E estas paradas abruptas quando o GPS já indicava o caminho todinho traçado no meu plano, vem que nem freada de bicicleta de quase fazer ser atropelada por ela. Aquela cena que a roda da frente freou e o resto da bicicleta não entendeu ainda e continua indo, sabe? Um engavetamento em si mesmo. Os carros engavetados nesta fila são todos em mim mesma. Que denunciam algo interessante: os vagões não estavam andando todos no mesmo ritmo, no mesmo tempo.


Desacarrilharam.

Vamos aos fatos. Fica mais fácil entender esta conversa toda.

Plano A: cicloviagem pelo Chile, na belíssima região dos Lagos. Preparada, de verdade, fisicamente, eu não estava. Já tive fases de estar num condicionamento invejável de aguentar qualquer borrachada. Nesta linguagem de hoje, galáctica! Mas rola muito mais que preparo físico em viagem de bicicleta. Rola desapego. Rola o lance da cabeça e do preparo emocional. Pra quem já fez maratona, sabe bem o que estou falando. Não adianta o cara ser todo fitness, forte fisicamente, se não souber lidar com os monstros psicológicos que brotam durante a prova. Cabeça boa. Frieza. Foco. Equilíbrio emocional.

Bem. Fisicamente eu contava com a “memória corporal” que me salva e me bota na ativa num estalo. Mas não significa que me livre de um certo desgaste e exaustão. Como eu havia feito uma mini trip bem Nutella, mas com uma rodagem até legal, no início de novembro, juntei a coragem e a vontade e pus no papel. Baixei percursos no aplicativo que uso para viagens e desenhei a viagem de férias!


O fato é que no primeiro dia que retornei para casa pós esta minitrip, toda animada, sai para regrar minha preparação física para a empreitada: alternaria corrida, natação, pedalada, juntamente de exercícios de fortalecimento localizado. Coisa que tiro de letra, tenho conhecimento, faço fácil se tiver uma meta. Manhã livre, saí animada pra girar meia hora. Me empolguei. Fui ziguezagueando pelas velhas estradinhas de terra conhecidas minhas de outras épocas e completei uma hora. Mirei o caminho de volta ziguezagueando as ruas até em casa e fui subir na calçada.



Pof! De joelho no chão. Tropecei na pedra na calçada que não era calçada, na terra e num monte de pedras, que nem deu tempo de por a mão pra amortecer a queda. O impacto foi tão forte que o corte chegou no tendão. O sangue já ia jorrar dali, mas tirei a meia do pé, pus em cima e usei o porta celular com velcro pra estancar o sangue.

Cena 1. Hospital. Um primeiro atendimento. Opções de intervenção corretas. Executada a errada. Complicações. Busca de procedimentos adequados que reparassem o estrago feito. Paciência para a recuperação.


Saldo. Um mês para fechar a cicatrização externa. Mais tempo para a cicatrização interna. Decisão. Nada de viagem em bicicleta. Nem Plano  A, nem Plano B. Que era de cruzar SC, seguindo o Guia Sul mapeado por Olinto e Rafa. Outro velho sonho meu. Passando pela Serra Catarinense, emendando todos os Circuitos de Cicloturismo de SC que eu já fiz. Chegando ao RS.


Pensa, pensa, pensa, saco o Plano C. Boto no papel. Desenho de última hora uma Triptour BR 🇧🇷. Passando pelo interiorzão brasileiro. Região Centro-oeste. Nesta região de belezas desbravadas na unha. Cachoeiras, Chapadas, regiões áridas de areião pelo Jalapão. E uma espreitadela entrando pelo nordeste brasileiro e dando um cheiro no litoral baiano. Uma junção de tour interiorano e visitas pra tomar café na casa de velhos e novos amigos. Sim! Aqueles amigos que você conhece em viagem, pega o endereço e jura que um dia vai visitar e nunca vai. E os velhos amigos de infância, faculdade, que se mudam ou são de outras cidades longínquas e você faz as mesmas promessas que um dia vai visitar e nunca vai. Era este o plano!


Cena 2. Terceiro dia de passeios pela Chapada dos Veadeiros. (Da viagem, conto depois. Noutros posts!) Trilha belíssima que mistura mata fechada, descampados floridos e de sol escaldante, descidas e passagens em rios cristalinos. E uma chegada impactante! Daquelas… “Jisuis! MeoDeos!” E ficar sem fôlego, boquiaberta, paralisada por tanta beleza. Início de tarde, sol a pino. Tudo convida!


A piscina represada, a água cristalina repleta de peixinhos em cardume, aquela queda de mais de  120 metros de altura, se despejando sobre o paredão, chamando. Mix de tudo. Fazer vídeos, fotos, tagarelar com quem estava no caminho, reencontrar amigos de outras trilhas, nadar, boiar, ir até a cachoeira, congelar de frio, voltar correndo pro sol nas pedras. Por corta-vento. Nadar de volta pra Cachoeira. Matar a vontade de ficar ali sentada zen… Aquietar na pedra e só contemplar… Já estava feito. Mas, irresistivelmente, a sessão fotos começou. Eu não tinha feito ainda nada no estilinho clichê. Mas me rendi. Me ofereci tirar fotos para um casal que tinha esquecido o celular e câmera. Pra mandar pra eles depois. Aí pedi. “Tira pra mim?” Pronto? Pronto. Mas eu inventei de subir de novo na pedra pra tirar outra foto.


Desnecessário. Pura bestagem. Feita a bobagem. Subi. Me desequilibrei e caí. Tombo feio. Pranchei de costas na pedra na água. De uma altura de um metro, da pedra onde eu estava, fui de costas pra água que, logicamente, era cheia de pedras. Aquela foto desnecessária que você podia ficar sem. A pancada foi violenta. Disfarcei. Fiz de conta que não machuquei. Saí dali. Fiquei fazendo gelo nas costas na própria água da piscina da cachoeira uma meia hora. Eu estava morrendo de vergonha da bobeada que dei. Aquela cena ridícula de fazer o desnecessário por uma foto.


Cena 3. Eu achava que três dias de molho, off seriam suficientes para me recuperar do tombo e seguir viagem.


Cena 4. Hospital de Brasília. A 280km de onde caí. Nove horas de espera. Raio X feito. Sem fratura. Mas o óbvio esperado. Fim de trip. Repouso. Nada, nada de movimento.

Cena 5. Em casa. Descarregando o carro. Bagagem pra mês e meio de viagem off-road, com a casa dentro do carro. Barracas, equipos de camping, bicicletas dentro, equipos para Cicloturismo (vaiquedá, né?). Enfim. Carro cheio, esvaziado, a interrogação. Por quê?


O bom da idade é que vai deixando a gente mais diboa. Alguns podem pensar que é se acomodar. Aceitar sem brigar. Não. Não é. A vida ensina. Fazemos. Fazemos muito. Mas não temos o domínio de tudo. Coisas acontecem e nem todas acontecem a favor dos planos que fazemos. Algumas vezes, pra ensinar persistência. Pra gente ir lá uma segunda, uma terceira, uma quarta vez. Pra testar o brio, a vontade mesmo. Pra fazer valer mais. Noutras pra mostrar o outro caminho. O outro jeito. O outro mundo a se viver, naquele momento. Pra você estar no outro lugar que não estava nos planos, mas que tem algo a te ensinar, algo a você fazer. Acredito assim.


Era pra ser mês e meio viajando. Foi semana e meia. Conheci um bocado de gente com esta minha mania de ir puxando conversa até com parede. Mais que qualquer presente que a natureza oferece neste meu deslumbramento em conhecer lugares de cair o queixo e me deixar muda, este conhecer pessoas no caminho me fascina!



Descobrir pessoas que saem do conforto de suas casas, da mesmice do sofá, da TV, que conseguem desconectar do celular para viver ao vivo, experiências novas, não on-line. Mas onlife! Poucos minutos ou horas de conversa com pessoas que você nunca viu, talvez, nunca mais vai ver, que te reabastecem de alegria e energia.



Uma espécie de reacreditar na simplicidade das pessoas. Laços essenciais e simples que tecnologia nenhuma rouba ou é capaz de replicar. Laços ternos entre irmãos que viajam juntos.


Pedido de casamento feito em cima de balão pra mulher da tua vida.


Amizades que brotam no meio do nada, só por causa de uma carona dada, uma conversa iniciada no café, na cachoeira, na estrada. Isto tudo vivi!


A história que começou com o nome de “Tem de rir pra não chorar” veio pipocando na minha boca na viagem. Dá um livro. Porque viajar parece ser um compacto em alta rotação da vida. Onde você atenta ao que realmente importa.

Não dá pra perder tempo se lamuriando, valorizando problema e desvalorizando o que é presente de graça. Não ter o controle de tudo não é problema. É a surpresa da vida. A minha relação com as paradas é longa. Algum motivo sempre tem. Iniciar a viagem só atiçou ainda mais a vontade de ir. Mesmo que parando. Algumas portinhas se entreabrem e se fecham porque não é a hora certa, o jeito certo, a forma certa. Só. Rir de mim mesma a cada cena , uma forma de fazer graça da desgraça, que torna comédia o drama pesado de chorar de si mesma.


Foram apenas dez dias de viagem num plano de quarenta e cinco. Tem mais coisa a se contar. Ixi. Como tem. Pra quem crê, livramento. Noutra linguagem, um tirar da cena com dedos cuidadosos, pra que a peça aconteça na hora certa. Desde carro quebrado na volta, o repensar do dirigir mais lento e mais cuidadoso na estrada. Os quase atropelamentos de animais atravessando a pista que não aconteceram porque voltei de táxi rodoviário, com um motorista ultra cuidadoso andando a 80 e o meu carro no guincho…


Cena final. Cena de novela. De drama. Tragédia romana que virou aventura, risada, espera, madrugada adentro, aprendizado. A vida oferece isso. Pega a cena quem quiser!

Daquele periódico que meus pais compravam “Flagrantes da Vida Real” a sessão chamada “Rir é o melhor remédio” fecha a cena.


Fim


Fim, nada. Logo tem mais!