Vamos conversar?

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Floripa, Ilha da Magia!


Já me perguntaram o porquê deste nome. Não soube responder. Vou tentar.

Conheci Florianópolis, quando pequena, junto do meu pai. Viajeiro e fotógrafo de coração, sempre inventava viagens em família. Eu me lembro bem de fotos nossas com a ponte Hercílio Luz ao fundo. Eu bem meninota, fazendo pose!

Éramos em seis. Meus pais e nós, quatro filhas meninas. Então, sempre uma ficava de fora da viagem por não caber no carro. Naquela época, não havia exigência de cinto de segurança e, muitas vezes, fazíamos caminha no chão do carro no fundo. Uma ia dormindo no banco traseiro, outro no chão, quando íamos em quatro

Eu  me lembro que fiquei toda cheia pois, conforme meu pai dizia, tínhamos ido conhecer, numa única viagem, cinco capitais brasileiras. Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e… Niterói! Que naquela época, era capital do Estado do Rio de Janeiro. Enquanto o Rio de Janeiro era capital do Distrito Federal. Alguém se lembra disso? Só os cinquentões…

Florianópolis não sei de quando é chamada carinhosamente de Ilha da Magia. Com todas as vertentes sobre suas explicações, vou inventar a minha!


Um lugar que se reinventa e nos faz reinventá-la, nos faz nos redescobrirmos e descobrirmos novas facetas em nós mesmos, só pode ser mágico! Falo muito de redescobrir o que já somos. E isto é fantástico para quem anda se esquecendo quem é. Mas existe este lado de descobrir possibilidades a partir do que já se é e que nunca haviam sido pensadas.


Já passei pela ilha como filha criança. Como universitária com o grupo de amigos da faculdade. Como esposa em família. Como mãe de criança. Como atleta em corrida na Volta a Ilha. Como mãe de adultos. Como ex professora de aluno que correu atrás de seu sonho e contra tudo e quase todos, formou-se em medicina. Como namorada. Como viajante solo, mochileira, trilheira, embora motorizada, que gira a ilha em bicicleta. Como Cicloturista em Ciclotour, que veio ficar uns dias sem usar quatro rodas. Como viajeira flexível que torce o nariz porque não ia usar as quatro rodas, mas que para levar os meninos do AirBnB que estão na ilha pela primeira vez, possam conhecer mais dos cantinhos escondidinhos da ilha, pega o carro e vai.

Como um saco surpresa que resolve no dia o que vai fazer neste dia.


Se não houver magia, vira cardápio. Aquilo que você olha e sabe o que vai pedir. Escolhe o que vai comer. Engole sem degustar diferente, porque mesmo que tenha escolhido no menu, algo nunca apreciado, faz ideia. Imagina. Prevê.

Algo mágico é como se você vedasse os olhos e alguém te trouxesse algo para saborear, sem nem saber a forma, a cor, o sabor. Fica toda sentidos, como se dependesse, exclusivamente, de perceber. Sem adivinhar.

Compreende?


Sabe aquela Cartola do Mágico que você olha, marota de longe, sem saber se sai coelho, se sai pomba, se sai ou some o que você vê?

A Cartola. A Ilha Mágica é assim. Feito Cartola. Atraindo olhares faiscantes que procuram lá dentro, olhando de longe, o que surgirá!

Passei por lugares tantas vezes pisado, podendo pisar diferente. A bicicleta me proporcionou um passar mais vagaroso por estradinhas e entradinhas que convidavam. Também me fez passar ligeira na hora da fila cheia de motores mal humorados. Que me deixavam mais faceira, ainda, algumas vezes, sacando a câmera para filmar pra poder dizer pra todo mundo… #vaidebike #debikeemelhor #umcarroamenos #soporhojeexperimenteabike #bikeevida #cicloviaerespeitoavida

É até engraçado. Esticar os anos de vida, ter mais anos de vida, ter outras vidas pra se viver tudo que não se conseguiu viver, é sonho de muita gente. Mas, então, você descobre que dá pra reiniciá-la sem virar bebê. Iniciando num ponto de maturidade, ideal onde você já tomou seus tombos, já aprendeu no amor & na dor a dar importância ao que é importante. Como se já partisse tendo lido o manual de instrução do básico. Mas tem em mãos e nos pés, o meio para fazer diferente. O meio para experimentar diferente. Quase como fosse outra vida. E é!



Para quem pôde experimentar a cidade noutros meios, seja a pezão, busão, carona, avião e carro, passar pela ilha em bici é mágico! Isso! Mágico! Você sai sem pressa, não se estressa, toma vento no caminho que te refresca e, se quiser, prende tudo no guidão ou garupeira, abaixa a blusa na cintura e vai pelo caminho todo se bronzeando… Quer mais?

É de graça.
Não polui.
Autossuficiente.
Energia gratuita.
Academia gratuita.
Saudável.
Faz (mais e mais e mais) saudável!
Apaixonante


Bicicleta e a ilha orna. Pra quem não tem, já até tem a bicicleta por aplicativo. Pra zanzar, nos moldes já existentes em cidades européias e algumas brasileiras. Explico. Baixa o aplicativo em seu celular. Escolhe o plano desejado, de acordo com o tempo que pretende usufruir o serviço. Horas, dias, semanas, mês. Efetua o pagamento. Abre o aplicativo. Visualiza, no mapa, onde encontra a mais próxima. Vai até ela. Destrava pelo QRCode. Sobe e usa. Quando chegar ao lugar desejado, trava a bici para liberá-la para o próximo usuário, desvinculá-la de seu nome. Pronto. Rodou pela ilha em plena temporada, sem parar, uma única vez, em filas de congestionamento!

Mais.


Você descobre que é capaz de sair de sua zona de conforto. Que 10 km vira pouco rapidinho. Que pode e consegue superar pequenas distâncias. E elas vão ficando cada vez maiores em km e menores em dificuldade.

Mais?

Inspira outras pessoas. Que para usar a bici não precisa ser atleta. Se quiser, você pode até virar! Mas você pode sair sem roupinha de modinha, de shorts, saia, sandalinha, vestidinho, arrumadinha, capacete é bom e só. Que aos poucos, ela vai virando um prolongamento de seus membros. Porque aquilo que faz bem pra gente, vira um pouco a gente e a gente também. Numa osmose positiva de incorporar (preste bem atenção à palavra!) quem nos dá asas pra ir… sem fim!


A bicicleta faz a ilha se Mágica pra mim!

sábado, 12 de janeiro de 2019

Latitantes. História de amor incondicional!



Verão passado. Como amo passear com este bichinho...🐕



Tinha planejado fazer a ciclotrip 🚲🎒 com ele. Projetei um suporte na garupa onde pudesse fixar sua casinha🏠. Tinha duas opções de casa. A rígida e a flexível. Esta da foto. Bem ventilada, confortável, mas não protegeria da chuva que é uma constante no verão catarinense.





A rígida seria a ideal. Ventilada, um pouco menos, mas não entraria chuva. Porém, achei que o bichinho era menor. Comprei a P.... 😮🙄😏😜. Errei o tamanho. 🤦

Com isso, ele ficaria muito apertado.

Desisti de levá-lo comigo. Deixei juntamente do carro, na casa do meu amigo em Penha. Início da cicloviagem do Circuito Costa Verde & Mar..

E assim que acabei a etapa trip bike, dez dias depois, corri pegá-lo pra passear.

Cachorros tem um quê só deles! Um amor incondicional pela gente. Lealdade. Parceria. Cuidado. Uma espontaneidade de derreter o coração. Por mim, levaria junto comigo em tudo! Mas na Triptour BR 🇧🇷 tive de optar deixar. Pois não é permitido adentrar nos PARNAS com animais domésticos. E levar por levar e deixá-lo, não daria. Pois na maior parte do tempo, eu acamparia.

Ainda vou adaptar a bike para ele ir comigo. Quem sabe, pela América do Sul. Mas não gostaria de levar na carreta para bike atrás.

Li, outro dia, o relato do Israel, sobre receber a notícia da morte de seu dog. Ele, em viagem há três anos. O companheiro, já idoso, falecer, lá na sua terra e sua mãe lhe mandar a notícia 😢. O vazio que dá. E isto me faz pensar se vou mesmo cair na estrada sem ele. Parece bobagem?

Tenho sonhos de viagem. E defino dois bem certos. Um ano de bike pela América do Sul. E uns três anos viajando e morando na estrada num carro que me dê autonomia pra seguir.






Já fiz algumas pernas de viagem com meus filhos pela América do Sul. Contornando desde a Cordilheira dos Andes, região dos vulcões do Chile e Argentina. Região dos Lagos. Até o Ushuaia. Geleiras do El Calafate. Retornando por toda Costa litorânea Argentina com suas pinguineiras, aquelas não exploradas nos pacotes comerciais. Aqueles cantinhos escondidinhos, que só os donos de posto de gasolina no caminho nos contam e revelam.

Já fomos de carro pela Costa litorânea de todo o sul do BR + Uruguai . Parando, acampando, bicicleteando trechos no caminho, passando pelo lugar mais exótico que já estive, Cabo Polônio, até chegar à ponta, em Colônia del Sacramento.



De avião + busão, van, táxi, trem, avião dinovo, pele Bolívia, Peru e Chile, naquele triângulo que concentra as belezas mais estonteantes por metro quadrado, num giro de duas semanas onde fizemos milagre e conseguimos espiar e nos esbaldar de ver as cidades pré-incas, incas e a única cidade inca viva Ollantaytambo. Desertos de sal e montanhas com Lagos congelados. Aqueles nomes que você ouve e ficam ecoando, pedindoindoindo na cabeça, até você se decidir a ir. Tiwanaco, Lago Titicaca, Islas Flotantes em Puno, Machu Picchu (off course!), Salar de Uyuni (pfv, né!), Atacama. Ficou de fora a Estrada da Morte. Porque eu tinha costelas fraturadas em recuperação naquela viagem… 😱🤕🤦🤪😬😂







A América do Sul me fascina. E quero ir sem pressa por ela. Aliás, Plano A era este. Nestas férias. Lagos de bike. Abortei a ideia quando vi que não me recuperaria do corte no joelho, na queda correndo, em novembro. Plano B, de bike atravessar SC, também não era viável. Atrofiei muito no período pós queda e seria um tanto insensato cicloviagem solo assim. Plano C: de 4x4 pelo centro-oeste, chapadas, areiões jalapanêses, BA, terras onde nunca pisei. Caí dinovo. Vai saber que recados são estes pra mim?!

Li hoje, da Pã, sua descoberta, véspera de tufão anunciado pela ilha, via tufão interior, que os sonhos quando demoram acontecer, acontecem atrasados, fora do fogo do desejo genuíno! O que te denuncia e te pede. “Tem de ser agora. Depois, já era!” Uma baita reflexão. Não sei o quanto concordo, o quanto discordo. Mas mexe fundo. Tanto a resiliência e paciência de perseguir e realizar sonhos, no tempo onde podem acontecer. Quanto a honestidade de admitir que o tempo deles já foi. Que fazer a todo custo, é pura teimosia boba, desnecessária, que consome tempo energia e dindin, que se você tiver feeling o suficiente, desvia, e vai fazer o outro sonho, novinho em folha no tempo certo do agora. Meo…. Que honestidade gigante dela! De causar tufões na gente. Às vezes, ficamos tão obstinados em alcançar sonhos congelados no tempo, que não percebemos que nem os desejamos mais, tanto assim. Que alcança-los, vira mais obrigação, vaidade, vitrine, do que deleite.

Então, a cabecinha gira 😟, gira 🙃, gira 😲, gira 🤪, gira 🤸 do jeitinho que eu gosto, me cutucando, causando indagações…


A idade dos cachorros 🐶 provoca isso. Eles têm um tempo tão curto de vida e sei que quem não ama cachorros não vai entender nada do que estou falando. Mas pensar que o Tufo tem seis anos e tem, exagerando, dez anos de vida pela frente, me faz pensar e chegar à certeza, que não quero ficar quatro anos fora, sem levá-lo comigo, sem tê-lo comigo nestas minhas viagens. Estas minis trips, ok. Fica em casa, recebendo carinho, na sua caminha, seu lar, mesmo com saudades e não entendendo onde estou. Mas vou voltar. No máximo, mês e meio fora, volto. Mas viajar por meses, anos, deixá-lo… me faz pensar qual o sentido disso tudo! Ao mesmo tempo que soa ser tão tolo, apego, pergunto. Em que vale à pena se apegar? A gente discursa tanto, o tempo todo, desapego, minimalismo, para não criar teia de aranha, parado nos lugares, como se fosse feio, ruim, pernicioso, criar raízes. Ter vínculos. O nômade aprende isso. Senão, não segue. But…. E nesta bagagem, mini bagagem, não cabe levar amor? 👜♥️💟

Fico pensando e ruminando…

Escrevo com certa frequência. Leio muito. Desde livros que ficam pelas metades, metade lido, metade folheado, um tanto não terminado, blogs, textões no Instagram de viajeiros que sigo e amo, assisto vídeos dos canais idem, que, conforme o interior, busco um ou outro, e vou me inspirando e inspirando outros, quando paro e escrevo.

Na devida proporção, cada um com seus seguidores, leitores, amigos, quando compartilha suas passagens, paragens e viagens, participa desta mágica que é contagiar… Todo mundo teve alguém a quem ouviu e viu e fez seus olhinhos brilharem! Ouvindo pela primeira vez histórias malucas de perseguir sonhos malucos, ou não, e ir! E muito mais que realizar, compartilhar multiplica.

Poder ler, assistir, acompanhar as experiências destes viajantes que sigo é inspirador e, ao mesmo tempo, instigante. Falo isso porque as falas se repetem em bocas diferentes. A busca, logo se percebe, é interior. Óbvio. A passagem exterior por lugares exdrúxulos, estimula ainda mais. Parece aguçar sem piedade todas as terminações sensitivas da gente. Ficamos inteiros sensíveis, chorosos, alegres, tristes, depressivos, excitados, exageradamente vivos! E parece que aceleramos nossa capacidade de perceber a vida. De querê-la na íntegra. De não se conformar numa forma em que não cabemos.





Comecei a escrever falando do meu cachorrinho. Olha só onde fui parar… Em devagações filosóficas sobre a vida. Talvez, porque, ao mesmo tempo em que viagens, acentuam nossas percepções de vida, o tempo de vida tão curto destes serezinhos nos acenda a luz vermelha, ligue o apito que nos acorda para sermos, desnudamente, sinceros pra nos perguntar e responder.

Você vive o tempo presente? Ou vive o sonho antigo, já obsoleto. Ou vive em função de alcançar condições futuras de fazer o que quer hoje. Que pode ser que não seja o seu desejo de amanhã, quando conseguir ter todo o aparato em mãos para realizá-lo...


Tenho um animalzinho fofo, inteligente, parceiraço de trilhas, bike, mar e cachoeira hoje, por tempo determinado. Que já correu muuuuito comigo, quando eu treinava, já foi por trilhas de bike por horas, que anda meio gordinho por falta de exercício por tanto que me machuco e sou obrigada a parar, sem andar, sem correr, sem ir pro vento. Será mesmo que vou cair na estrada sem ele?



Cair na cachoeira na Chapada dos Veadeiros desenhou um baita ponto de interrogação na minha vida. Em nenhum momento me rebelei, no estilo “Por que agora, por que comigo?” Aceitei. Só. Estas paradas abruptas acontecem com tanta frequência na minha vida que este recado, eu já entendi. Stop. Eu sabia que tinha algo a fazer em casa, neste período. Aceitei, voltei. O pensamento mais certo na minha cabeça na hora do meiavoltavoltaemeiadar foi de que tenho tempo pra ir passar com a devida calma, pelo roteiro que desenhei. Sem pressa. Sem atropelo. Sim. Certos lugares não se conhece com um cachorrinho a tiracolo. Parques nacionais, os PARNAS, nenhum. E morar na estrada não permite você deixar teu pet em casa, pra você ir dar uma voltinha. Porque, muitas vezes, a casa é a barraca. O carro. A casa de alguém. A cama dentro de um quarto cheio de beliches. Então, não dá.

Como nada é definitivo, nada é estagnado, ainda há opções. Mesclar. Nem só ao mar. Nem só à terra. Por enquanto, vou alternando.

Mas ter um serzinho como ele que posso, ou não, levá-lo, diferente de um filho, um neném, ter a opção e, de repente, optar por seguir sem ele, é um abraçar um caminho onde você não vai poder voltar os ponteiros do relógio. Ironia da vida, fato que é aplicável a tudo na vida. Mas de uma maneira suave. Nem por isso,  menos cruel, quando você segue sem e tem de encarar que pode não vê-lo, de novo.


De tudo isso, cachorros não são bibelôs. Decidir tê-los é um compromisso de carinho recíproco. Deles, natural, espontâneo. Sem exagero, acredito hoje, a forma mais sincera e incondicional de amor de um ser vivo ao outro. Porque ser humano é egoísta. Manipulável. Influenciável. Eles, não.

Este serzinho foi meu antidepressivo risonho, saltitante, que me tirou do sofá, de dentro de casa, me obrigou a ver a luz do sol, quando eu não tinha vontade nenhuma de fazer qualquer algo pra mim. Me faz cruzar com pessoas no caminho com seus respectivos serezinhos latitantes e fazer amizades. Aprender nomes de cachorros e pessoas. Praticar sorrisos. Palavras de bom dia. De atenção. De me movimentar. De sair da inércia física, intelectual e emocional.

Uma história de amor onde a gente mais recebe do que doa.



Chega por hoje. Vou lá praticar a minha parte levando o Tufo pra passear!



terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Tem de rir pra não chorar...


Se eu contar, ninguém acredita. Amigos velhos já disparam “Dinovo?” “Não acredito!”. Amigos novos, rapidinho já se acostumam.

O número de vezes que eu me machuco, Caio, viro o pé, rompo ligamento, tendão e ultimamente, corte bobo  fundo em joelho que demora mais de mês pra cicatrizar e mingua planos de viagem de bicicleta.

Aquela frase “aprendendo a rir de mim mesma” serve bem pra mim e me acompanha. Junto desta: “Tem de rir pra não chorar!”. Perfeita.


Feita a arte, a não arte, desastre tem de virar motivo de risada. Resta o quê? Chorar não adianta. Reclamar só piora. Mal humor pra quê!

O meu histórico de machucadeira é louvável. Faz parte de mim. Já chorei um bocado por isso. E não vou dizer que não choro ainda quando acontece. Tem um misto de dor física e dor emocional. Porque machucar, geralmente, está ligado a uma parada abrupta e obrigatória de algo que ia fazer. Que requer um certo preparo físico, uma boa dose de loucura (esta que ainda tenho de sobra!) coragem e vontade de ir (estas, ainda tenho um bom estoque…). E toda vez que me machuco, algum plano meu vai pro espaço. E, resignada, eu fico quieta, pra recuperar e entender o porquê.

Menina, menos. Menos, menina!


Só pode ser. Aqueles lances de hora errada, lugar errado, sabe? Prefiro pensar assim: hora certa, lugar certo, pessoas certas, tudo a favor. Nada é por acaso. O que tem de acontecer, acontece. Caminhos não se fecham. Se abrem. E estas paradas abruptas quando o GPS já indicava o caminho todinho traçado no meu plano, vem que nem freada de bicicleta de quase fazer ser atropelada por ela. Aquela cena que a roda da frente freou e o resto da bicicleta não entendeu ainda e continua indo, sabe? Um engavetamento em si mesmo. Os carros engavetados nesta fila são todos em mim mesma. Que denunciam algo interessante: os vagões não estavam andando todos no mesmo ritmo, no mesmo tempo.


Desacarrilharam.

Vamos aos fatos. Fica mais fácil entender esta conversa toda.

Plano A: cicloviagem pelo Chile, na belíssima região dos Lagos. Preparada, de verdade, fisicamente, eu não estava. Já tive fases de estar num condicionamento invejável de aguentar qualquer borrachada. Nesta linguagem de hoje, galáctica! Mas rola muito mais que preparo físico em viagem de bicicleta. Rola desapego. Rola o lance da cabeça e do preparo emocional. Pra quem já fez maratona, sabe bem o que estou falando. Não adianta o cara ser todo fitness, forte fisicamente, se não souber lidar com os monstros psicológicos que brotam durante a prova. Cabeça boa. Frieza. Foco. Equilíbrio emocional.

Bem. Fisicamente eu contava com a “memória corporal” que me salva e me bota na ativa num estalo. Mas não significa que me livre de um certo desgaste e exaustão. Como eu havia feito uma mini trip bem Nutella, mas com uma rodagem até legal, no início de novembro, juntei a coragem e a vontade e pus no papel. Baixei percursos no aplicativo que uso para viagens e desenhei a viagem de férias!


O fato é que no primeiro dia que retornei para casa pós esta minitrip, toda animada, sai para regrar minha preparação física para a empreitada: alternaria corrida, natação, pedalada, juntamente de exercícios de fortalecimento localizado. Coisa que tiro de letra, tenho conhecimento, faço fácil se tiver uma meta. Manhã livre, saí animada pra girar meia hora. Me empolguei. Fui ziguezagueando pelas velhas estradinhas de terra conhecidas minhas de outras épocas e completei uma hora. Mirei o caminho de volta ziguezagueando as ruas até em casa e fui subir na calçada.



Pof! De joelho no chão. Tropecei na pedra na calçada que não era calçada, na terra e num monte de pedras, que nem deu tempo de por a mão pra amortecer a queda. O impacto foi tão forte que o corte chegou no tendão. O sangue já ia jorrar dali, mas tirei a meia do pé, pus em cima e usei o porta celular com velcro pra estancar o sangue.

Cena 1. Hospital. Um primeiro atendimento. Opções de intervenção corretas. Executada a errada. Complicações. Busca de procedimentos adequados que reparassem o estrago feito. Paciência para a recuperação.


Saldo. Um mês para fechar a cicatrização externa. Mais tempo para a cicatrização interna. Decisão. Nada de viagem em bicicleta. Nem Plano  A, nem Plano B. Que era de cruzar SC, seguindo o Guia Sul mapeado por Olinto e Rafa. Outro velho sonho meu. Passando pela Serra Catarinense, emendando todos os Circuitos de Cicloturismo de SC que eu já fiz. Chegando ao RS.


Pensa, pensa, pensa, saco o Plano C. Boto no papel. Desenho de última hora uma Triptour BR 🇧🇷. Passando pelo interiorzão brasileiro. Região Centro-oeste. Nesta região de belezas desbravadas na unha. Cachoeiras, Chapadas, regiões áridas de areião pelo Jalapão. E uma espreitadela entrando pelo nordeste brasileiro e dando um cheiro no litoral baiano. Uma junção de tour interiorano e visitas pra tomar café na casa de velhos e novos amigos. Sim! Aqueles amigos que você conhece em viagem, pega o endereço e jura que um dia vai visitar e nunca vai. E os velhos amigos de infância, faculdade, que se mudam ou são de outras cidades longínquas e você faz as mesmas promessas que um dia vai visitar e nunca vai. Era este o plano!


Cena 2. Terceiro dia de passeios pela Chapada dos Veadeiros. (Da viagem, conto depois. Noutros posts!) Trilha belíssima que mistura mata fechada, descampados floridos e de sol escaldante, descidas e passagens em rios cristalinos. E uma chegada impactante! Daquelas… “Jisuis! MeoDeos!” E ficar sem fôlego, boquiaberta, paralisada por tanta beleza. Início de tarde, sol a pino. Tudo convida!


A piscina represada, a água cristalina repleta de peixinhos em cardume, aquela queda de mais de  120 metros de altura, se despejando sobre o paredão, chamando. Mix de tudo. Fazer vídeos, fotos, tagarelar com quem estava no caminho, reencontrar amigos de outras trilhas, nadar, boiar, ir até a cachoeira, congelar de frio, voltar correndo pro sol nas pedras. Por corta-vento. Nadar de volta pra Cachoeira. Matar a vontade de ficar ali sentada zen… Aquietar na pedra e só contemplar… Já estava feito. Mas, irresistivelmente, a sessão fotos começou. Eu não tinha feito ainda nada no estilinho clichê. Mas me rendi. Me ofereci tirar fotos para um casal que tinha esquecido o celular e câmera. Pra mandar pra eles depois. Aí pedi. “Tira pra mim?” Pronto? Pronto. Mas eu inventei de subir de novo na pedra pra tirar outra foto.


Desnecessário. Pura bestagem. Feita a bobagem. Subi. Me desequilibrei e caí. Tombo feio. Pranchei de costas na pedra na água. De uma altura de um metro, da pedra onde eu estava, fui de costas pra água que, logicamente, era cheia de pedras. Aquela foto desnecessária que você podia ficar sem. A pancada foi violenta. Disfarcei. Fiz de conta que não machuquei. Saí dali. Fiquei fazendo gelo nas costas na própria água da piscina da cachoeira uma meia hora. Eu estava morrendo de vergonha da bobeada que dei. Aquela cena ridícula de fazer o desnecessário por uma foto.


Cena 3. Eu achava que três dias de molho, off seriam suficientes para me recuperar do tombo e seguir viagem.


Cena 4. Hospital de Brasília. A 280km de onde caí. Nove horas de espera. Raio X feito. Sem fratura. Mas o óbvio esperado. Fim de trip. Repouso. Nada, nada de movimento.

Cena 5. Em casa. Descarregando o carro. Bagagem pra mês e meio de viagem off-road, com a casa dentro do carro. Barracas, equipos de camping, bicicletas dentro, equipos para Cicloturismo (vaiquedá, né?). Enfim. Carro cheio, esvaziado, a interrogação. Por quê?


O bom da idade é que vai deixando a gente mais diboa. Alguns podem pensar que é se acomodar. Aceitar sem brigar. Não. Não é. A vida ensina. Fazemos. Fazemos muito. Mas não temos o domínio de tudo. Coisas acontecem e nem todas acontecem a favor dos planos que fazemos. Algumas vezes, pra ensinar persistência. Pra gente ir lá uma segunda, uma terceira, uma quarta vez. Pra testar o brio, a vontade mesmo. Pra fazer valer mais. Noutras pra mostrar o outro caminho. O outro jeito. O outro mundo a se viver, naquele momento. Pra você estar no outro lugar que não estava nos planos, mas que tem algo a te ensinar, algo a você fazer. Acredito assim.


Era pra ser mês e meio viajando. Foi semana e meia. Conheci um bocado de gente com esta minha mania de ir puxando conversa até com parede. Mais que qualquer presente que a natureza oferece neste meu deslumbramento em conhecer lugares de cair o queixo e me deixar muda, este conhecer pessoas no caminho me fascina!



Descobrir pessoas que saem do conforto de suas casas, da mesmice do sofá, da TV, que conseguem desconectar do celular para viver ao vivo, experiências novas, não on-line. Mas onlife! Poucos minutos ou horas de conversa com pessoas que você nunca viu, talvez, nunca mais vai ver, que te reabastecem de alegria e energia.



Uma espécie de reacreditar na simplicidade das pessoas. Laços essenciais e simples que tecnologia nenhuma rouba ou é capaz de replicar. Laços ternos entre irmãos que viajam juntos.


Pedido de casamento feito em cima de balão pra mulher da tua vida.


Amizades que brotam no meio do nada, só por causa de uma carona dada, uma conversa iniciada no café, na cachoeira, na estrada. Isto tudo vivi!


A história que começou com o nome de “Tem de rir pra não chorar” veio pipocando na minha boca na viagem. Dá um livro. Porque viajar parece ser um compacto em alta rotação da vida. Onde você atenta ao que realmente importa.

Não dá pra perder tempo se lamuriando, valorizando problema e desvalorizando o que é presente de graça. Não ter o controle de tudo não é problema. É a surpresa da vida. A minha relação com as paradas é longa. Algum motivo sempre tem. Iniciar a viagem só atiçou ainda mais a vontade de ir. Mesmo que parando. Algumas portinhas se entreabrem e se fecham porque não é a hora certa, o jeito certo, a forma certa. Só. Rir de mim mesma a cada cena , uma forma de fazer graça da desgraça, que torna comédia o drama pesado de chorar de si mesma.


Foram apenas dez dias de viagem num plano de quarenta e cinco. Tem mais coisa a se contar. Ixi. Como tem. Pra quem crê, livramento. Noutra linguagem, um tirar da cena com dedos cuidadosos, pra que a peça aconteça na hora certa. Desde carro quebrado na volta, o repensar do dirigir mais lento e mais cuidadoso na estrada. Os quase atropelamentos de animais atravessando a pista que não aconteceram porque voltei de táxi rodoviário, com um motorista ultra cuidadoso andando a 80 e o meu carro no guincho…


Cena final. Cena de novela. De drama. Tragédia romana que virou aventura, risada, espera, madrugada adentro, aprendizado. A vida oferece isso. Pega a cena quem quiser!

Daquele periódico que meus pais compravam “Flagrantes da Vida Real” a sessão chamada “Rir é o melhor remédio” fecha a cena.


Fim


Fim, nada. Logo tem mais!