Vamos conversar?

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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

A hora do espelho



Eu te seguro e você me segura.

Ok?


Minha força vem de algo muito além de mim.


No interior reside minha força. A que nunca me abandona.


Não fosse assim, ai de mim!


Fé. 

Gentileza.

E tantas palavrinhas que viram modinha mas precisam ser vividas verdadeiramente, muito mais no coração e ação do que em publicação.


Existem momentos singulares. Únicos. Onde tudo some à volta e fica ali você e você. Nada mais. Sem poder fugir, o diálogo se inicia. 


Momento duro este, não?


O diálogo mais revelador é este. A sós, se ouve a si mesmo. Este serzinho que você sempre deixa pra depois. Pra quando sobrar tempo. E se deixa engolir por ele, o tempo e pela "falta" dele.


Ironicamente, nestes momentos, é como se você se deparasse com no espelho. E pah! Desse de cara com um estranho. Senhor, senhora, senhorita, rapaz. 


Rapaaaaaazzz! Quem é esse aí??? Estranha o estranho. A estranha. E ele parece chatamente, repetir todos os movimentos que você faz. Te tirando... Demora pra você perceber a brincadeira. Não é brincadeira. É você!


Refeito do choque, inconformado, você, ainda contrariado, esboça um "oi, você aí".


Senha dada. A conversa acontece. Tímida. Mas sedenta de acontecer. 


  • Por onde você esteve?

  • Quem? Eu?

  • Ué. Quem mais?

  • Oras… Andei ocupado. 

  • Ocupado… Com importâncias? Ou desimportâncias?

  • Óbvio. Importâncias. Quer dizer…

  • Quer dizer?

  • Calma. Me deixe pensar!

  • Sim?

  • Acho que andei correndo pro lado errado da vida…


Conversa que vai e promete.

Bom quando isso acontece a tempo de inverter a corrida. Melhor. De desacelerar esta corrida. E brisar um pouco. Refrescar-se e perceber o tempo de olhos fechados, somente.


Neste estar a sós, revelações acontecem. Os teus próprios segredos, escondidos e abafados abaixo de sete palmos de pesadas pedras. Porque certos segredos vão gerar um desconforto gigante em você. Te provocando decisões. Mudanças. E, afinal. Quem é que quer ter o trabalho de mudar alguma coisa, se o cômodo caminho do "de sempre", vai no piloto automático. Não requer nem pensamento, nem emoção. Quem é louco de querer pensar e sentir…


Eu.




segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Simplicidade, basta!





Com um sorriso deste, precisa legendar?


Podia ser lá fora. 

Sim. Realmente. Mundo imenso e cheio de belezas de cair o queixo.

Já rodei bastante a América do Sul até o extremo Sul. Lá no tal " Fim do mundo". Alguns pontos imperdíveis e muitos que ficaram pra uma próxima. Porque quem nasce com rodinhas nos pés, sempre mira as próximas. Atravessando o Atlântico, foram viagens curtas mas muito bem aproveitadas. Que pedem mais. E lógico que vou.


Mas...


Neste tempo de quintal restrito, a gente se reinventa e reinventa o olhar. Redescobre lugares. E descobre pela primeira vez, lugares que se passava sempre pela beiradinha. 


Necessário.


Nada é por acaso. Adoro esta frase! Quanta verdade contém!


E, muitas vezes, algo que parece tão clichê, resume. Tantos lugares belíssimos que se vai, que já se foi, que inquestionavelmente são fodásticos e é num abraço que se descobre o melhor lugar do mundo.


Neste tempo de tanta restrição de toque, de contato físico, a gente percebe riqueza imensurável em coisas assim. Que se pode dar e receber graciosamente. A toda hora. Todo dia. Com toda gente. Mas tem esta mania de manter distância. Ser impessoal. Ser reservado. Não ser dado. E adoece por falta de carinho. Falta de demonstrações de afeto. Falta de... Ser humano.





Lugares simples.

Sentimentos simples.

Pessoas simples.

Demonstrações, simplesmente.


A gente sente falta.

E se sente, a única coisa a se fazer é começar a fazer!


A pandemia trouxe tantas mudanças de comportamento... Trouxe tantas restrições. Mas trouxe também fases de fazer. Sim. Fases de fazer. Quem não passou por elas? Nem precisa mencionar...


Hoje, já abraço algumas pessoas. E recebo abraços. E , meu Deus! Como senti falta disso! Como precisava disso! Pode não ser o mais certo. Mantenho cuidados. Afastamento. Mas entendi que afastamento físico é uma coisa. Isolamento é outra. E não quero me isolar de pessoas que quero bem. Fazem bem só de existirem. De passarem algumas horinhas, ou minutinhos apenas de trololó. Sabe? Conversa desinteressada. Só. Conversa à toa. De prosa boa. Porque é gostoso e pronto!





Vai passando o tempo e vou vendo que não quero acumular coisas. Que quero simplificar meu modo de viver.


De não acumular coisa alguma que não seja de me encher o coração de riqueza. Estas que não se compra. Ganha-se.


Estou revendo meus valores. E não estranhe se eu sumir, simplesmente, virar bicho do mato que já sou mesmo, desconectar de vez da tecnologia e comunicação mundão afora, só pra me conectar mundo adentro. Pras coisas do coração.


Já passei da metade da vida. E nesta primeira metade, pode ter certeza. Somos muito rudes conosco mesmo. Exigentes. Cobrativos. Seguindo aprisionados na nossa enganosa forma de liberdade. Pra ser livre, acumulamos bens. Pra poder usufruir a vida. E o tempo passa e a escravidão acontece. Como se houvesse um tempo mágico para parar com tudo isso e, finalmente, começar a viver.


Não. Não é semáforo gradativo. Daqueles que vão te indicando que o sinal vai mudar. Que o tempo do vermelho está acabando e vai começar as dez bolinhas de tempo do verde 


Não. Não é.


A vida é mágica por ser surpreendente. Esta é a graça. Não sermos donos do tempo. Não se pode postergar. Não se pode adiar a vida…





Já tive sonhos simples. Que cabiam no meu bolso. Já cresci os sonhos. Não em conquistas materiais. Mas de superações físicas, talvez porque minha maior perda foi física, quando acidentei e parei de andar por meses. Isso explica muito da minha obsessão em superar, superar e sempre ir. Deu né. As atividades agora são mais amenas e mais prazerosas.


Depois, sonhos mudando de formato. E percebi que sonhos também envelhecem! E é bom ter consciência disso. Senão, a gente fica correndo atrás de algo que não tem nada mais a ver com a gente… Só pra dizer que conseguir realizar. Aí, dá o vazio. "Pra quê mesmo erro queria fazer isso?"


De certo, ainda tenho sede de estrada e de horizontes. Mas tenho sentido querência de lar. De raiz. De me sentir em casa. De coisa simples. Café com pão. Arroz e feijão. Carinho e coração.


Pode ser que eu suma. Mas não. Na verdade, é aí que estarei de fato no meu lugar.





(Fluiu. Era pra ser um textinho despretensioso e curto sobre o que me faz sentir este lugar…)

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

O copo. Meio vazio? Ou meio cheio?




Sabe a história do copo?

Meio cheio?

Ou

Meio vazio?

Faz toda a diferença como você vê o espaço.

Que falta?

Ou

Já preenchido?


Este tempo...

De parada?

Ou

De pausa?

Parou?

Ou

Está apenas respirando, retomando o fôlego pra prosseguir melhor ainda?


E esta falta de vento e estrada. Pra quem é de vento e é de estrada? Como faz?

Tem ausência, sim.

Mas tem lembrança. Muuuuuita lembrança.

Que não é saudosismo melancólico. Que lamenta, lamuria que não está fazendo nada. 

Mas que aproveita aquecer o coração com tantas lembranças de tantas andanças, pedalanças, mochilanças afora.


O espaço pode ser um vazio. Uma ausência.

Ou.

Pode ser a possibilidade de preenchê-lo ainda mais?

Percebe?

Fins podem ser apenas inícios disfarçados. Que anunciam boas novas a acontecer.


Se fosse em rolinho de filme de 36 poses, eu teria muitos negativos guardados revelando cenas vividas de verdade.

Foi-se a época da fotografia analógica. Vem a digital.

E o mergulho por imagens são sempre envoltos de histórias.

A vivida naquele momento.

A lida por quem se depara com a imagem.

E vice versa.

Porque mesmo a mesma cena provoca um personagem diferente daquele instante que já se foi.

É por isso que escrever é infinito. Como a história do rio e do barco. A história nunca se repete. Nem um, nem outro se encontram novamente. Pois ambos retornam num novo encontro, como passantes diferentes.


Copo meio cheio?

Ou.

Meio vazio?


A vida assim é.

Depende do olhar.


Saudade?

Ou

Lembrança?

O óbvio assusta


Tem horas que é preciso mudar o ângulo, sair do ponto, considerar a vírgula, sobrevoar a si mesmo num vôo solo e solto pra poder enxergar.

O óbvio assusta.

Pensamentos decidem.

Desejos são as palavras que falamos. Muito mais do que as que desenhamos para que todos vejam.


A boca fala daquilo que a alma está cheia.


Inverta.


A alma fica cheia daquilo que fala a boca.


Dar forma às palavras em fala, prosa e verso. De tão certo, de tão perto, boca e coração, alma e mão, andam juntas. Palavra e coração.


É preciso ter a humildade suficiente para olhar-se no espelho das redundâncias. Nas repetições de inconstâncias pra entender. Há fatos que não precisam ser. Há fatos que são sem se perceber.


Embora e embora.

Uma fala que vai partir.

A outra dá uma segunda chance.

-Vou embora - diz uma.

-Embora você não mereça, eu fico - a outra permite.


E o jogo mais difícil de entender, o das palavras ditas sem ser mostrarem. E as que não são ditas por olhares. Um jogo. De medos e perdas. Que seguram. Inibem. Destroem sem se tentar. Que deduzem perdas por medo. Que abrem a porta para aquilo que acreditam.


A porta mais difícil de passar é esta. A do atrevimento. De ir mesmo que seja bobo. De acreditar mesmo que pareça louco. De ir mesmo que não pareça lógico. E de todos dizerem que não. Ou fazerem o oposto. De ousar passar mesmo que do lado de cá, haja certezas e conforto.


Quem foi que disse que seja o fácil, o melhor?


E as palavras se repetem em formatos e alfabetos diferentes. Mas a tradução é sempre igual.


Qual seria a palavra que resume o que todos e cada um quer nesta vida?


Pense na sua.

O pensamento é o mais rápido desejo que o cérebro produz e dá forma e dá forma em sentimento.


 #life #lifequotes #lifelessons #writers

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Pronde está indo é pronde quer ir??? Ou Tempo de FastFood e FastFriend



Pois bem. Depois de um longo período off do blog, eu volto.
Pra exercitar e massagear o que mais gosto de fazer. Escrever!

Muitas coisas aconteceram neste período. E meu grande e maior sonho se concretizou. Minha escrita culminou com um livro! E por mais que possa parecer tão parecido com o escrever num blog, não é não!

Teve outros títulos. Mudei. Mudei. Mudei de novo. Enfim, encontrei o título que condizia com ele: Alma Cicloviajante - Uma aventura pelo Vale Europeu.

Eu vou detalhar este processo noutras histórias. O que quero escrever hoje é um pós livro, pós lançamentos, pós realização.

Sobre o tempo.

Para quem pratica um esporte, é como o término de uma corrida. Uma maratona. Ou o término de um jogo de final de campeonato. Um suspiro após tantas respirações ofegantes de "fim-acabou".

Vazio. Vazio?

É o espaço entre o ocupado e o ocupado de novo. A lacuna. O intervalo. É somente o respiro. Pra começar outro algo, em seguida.

A conclusão do livro foi totalmente ocupada com os lançamentos que fiz. Totalmente prazerosa. E extenuantemente exaustiva. Eu tenho o costume de me jogar por inteiro no que faço. Paixão vivida. E não me arrependo nem um pouco.

Viver 100% do meu tempo de férias trabalhando com meu livro me proporcionou viver fartamente o "após" permitido pelo contato direto, teteatete, olhonoolho, faceaface com meus leitores. Falar com eles na platéia das minhas apresentações. Olhar nos olhos que faiscavam denunciando sonhos despertando de sonos profundos… Tive a grata oportunidade de ouvir pessoas que nem conhecia vindo falar comigo sobre suas vidas. Sobre suas lacunas. Sobre desejos esquecidos de vida. Tive o privilégio de ver sonhos serem postos em prática. Tenho recebido diariamente ou semanalmente, feedbacks das leituras.

Sim. A faísca foi riscada. Chamas acesas. Caminhos inciados.

Não é que eu seja a responsável por isso. Ninguém acende aquilo que não existe, previamente. O que acontece são como sinapses. Conexões. Uma reação em cadeia. Entende? Eu tinha, laaaaaaá atrás, alguém que fizesse despertar em mim um movimento lá dentro de incômodo, de interrogação. Que me indagava diariamente… "Pronde está indo é pronde quer ir???"

O que fiz foi reacender minha própria chama e passá-la adiante...

Eu acredito nisto. Por isso, sou tão convincente. Ter convicção do que se fala é o primeiro passo para o convencimento. Para falar com propriedade. Para contagiar quem ouve, ou vê o que falamos e fazemos. É preciso acreditar naquilo que se faz. E fazer aquilo em quê se acredita!

Pós férias trabalhadas, me dei férias. Desconectei. Necessitei me desligar, dormir, relaxar, nãofazerabsolutamentenada. Relacionado ao livro.

Há tempo pra tudo. E estou aprendendo a me permitir ficar invisível de vez em quando até do meu próprio olhar.

É preciso não perder o fio da meada e olhar a volta mais próxima. Pra dentro da gente mesmo. A reconhecer o cansaço, a necessidade básica de sono, por exemplo. De parar de fazer outras coisas importantes, para fazer aquelas outras tão importantes que acabam ficando no final da fila da urgências… Mandar um "oi" a alguém que passou no seu caminho. Perguntar se alguém precisa de ajuda. Sair da embalagem fast food do fast friend que só envia mensagens instantâneas, mas nunca aparece ao vivo e a cores.

Desvirtualizar. E vir-a-atualizar. Ir. Estar. Agora.

A velha frase. Depois pode ser tarde. O tempo não espera. O celular traz mundos pra mão. Mas não é presença real. É virtual.

#friends #friendship #life #lifestyle #on #off #time #timeline #theway #wakeup

📷 Mochilão Portugal MixTrip

domingo, 10 de novembro de 2019

Você também toma café frio?



Perguntinha estranha, não?
Explico.
Café, off course, é bebida quente. Ok que ando experimentando uns cafés gelados, como se fossem coquetéis saborizados, mix com frutas, ervas e sabores que acabam resultando numa bebida boa, refrescante e com o delicioso do meu inseparável café!

But.

Fazer café de manhã, significa obrigatoriamente tomar café quente. Não? Não. Por quê?

A hora que vou pra cozinha preparar o café, geralmente, já estou com a cabeça a mil. Mil futuros a dar conta e mil atrasados do passado a fazer. Mil tarefas. 



Já ouviu falar de homem-cobra x mulher-polvo? Consegue deduzir o porquê? Aquela veeeeeelhaaaa mania feminina de fazer mil coisas ao mesmo tempo. Quem nunca? Fez ou já viu sua companheira,a presença feminina da família te dando até tontura de rodar a casa feito furacão, rodopiando preparando o café da manhã, pondo o café para fazer, recolhendo o esparramado pela casa, escovando o dente, dando comida pro cachorro, se maquiando, trocando a roupa, pegando a chave, perdendo a chave, achando de novo, caçando o óculos de sol, de grau, voltando pra ver se o café está pronto, conferindo a bolsa, chamando os filhos para irem para a escola, enchendo sua caneca de café, pondo roupa na máquina pra lavar, chamando os filhos de novo, levando o dog pra fora pra dar seu passeio matinal, voltando pra dentro de casa, procurando sua bolsa, chaves e óculos, lembrando que esqueceu de carregar o celular e procurando o carregador, lembrando do café e… Café frio?

Vai assim mesmo!



Eu sou adepta desta cena. Já até acostumei. Naquela vibe de café gelado, gourmet, chique, saboroso, peculiar, diferenciado, moderno, inovador, vai assim mesmo. Quando não dou uma requentada bem da sem vergonha no microondas. Que me parece crime maior que tomá-lo frio.

Café frio?

Lógico. Falo de café, mas não falo somente de café frio. Falo de tantas outras coisas que birrentas, jogamos fora por terem esfriado. E que, na verdade, mantém seu sabor. Só um pouco modificado. E que necessitam, somente, serem repaginados com uma certa criatividade, um sabor a mais, um olhar e apreciar diferente. Que reformatem o café clássico, o de sempre, opinioso que não muda nunca. Nem de marca, nem de xícara ou caneca, que não aceitam mudança alguma. Que parecem ser autênticos clássicos do bom paladar. Mas que, com isso, deixam de vestir roupagens diferentes. Deixam de oferecer e experimentar em si mesmos, sabores diferentes.

Estou ainda falando de cafés?

Off course que não. 



Falo de pessoas. De vidas. Que tal qual o cafezinho clássico, sempredomesmojeito, leva a vida seeeeeempre do mesmo jeito, também. Porque assim está bom. Sempre deu certo. Receita que não falha. Fórmula exclusiva e excludente.

Pode ser que seu café da manhã esteja precisando sentir sabores diferentes. 
Pode ser que o café frio tenha algo a oferecer.
Pode ser que seja preciso mudar a marca, a canecapreferdadetododia, experimentar oportunidades que lhe pareçam café frio. E que sejam, exatamente, o ingrediente faltante de um cardápio que te alimente corpo, alma, sonhos e buscas.

Experimente.



domingo, 28 de julho de 2019

Coisas simples


Caminhos…
O tempo todo, estamos no caminho.
O passar por ele que diferencia as sensações, os aprendizados. As percepções de cada passo.



Estou num lugar muito especial e o caminho para cá, desta vez, foi muito especial, também. Passar pela estrada, seja asfalto ou terra, na velocidade do empurrar de pernas no pedal, cadencia o passo com o coração. Tuntum. Tuntum. Você estica. Você desapressa. Você vai feito montanha russa em descida, brincando arteira de pegar carona no vento e vai. Rasga um sorrisão no rosto. Rasga a bochecha de tanto rir de feliz. A liberdade vem em pacotinhos sem rótulo, só pra você descobrir, ao vivo, por onde está, pra você ir.



Na estrada, me pego em todos os meus formatos. Cabisbaixa, concentrada no passo da pedalada, suor escorrendo feito lágrima, no esforço de vencer a subida que tenta me fazer desistir. Nem vem, Senhora Subida! Você não me assusta! Eu sei que a qualquer instante, você acaba. Logo vem a sua irmãzinha arteira, que brinca comigo, me fazendo descer sem juízo, por ela, sem fim.



Na estrada, estou o tempo todo, sentimentos à flor da pele. Olhos aguçados, antenados com sons, cheiros, luzes. Recebo, desinteressadamente, os presentes que vêm. Não acelero o suficiente ao ponto de não poder ver o lado, o arredor e, pondo o pé no chão, ficar. Só pra ver o entardecer. Este tempinho onde tudo parece parar só pra assistir este jogo de luzes, sombras, em que ele se esconde.



Mergulho com ele. Um dia indo. Chamando a noite de meu bem.

De qualquer forma, percorrendo o caminho até o fim de faz de conta, o fim por hora, o fim pra hoje, ainda há presentes mais reservados. A noite dormida seria bivacando (A modalidade de dormir acampado, sem barraca. Apenas com o saco de dormir). Aquela velha frase que todo cicloviajante raiz conhece bem… "Tem um cantinho só, uma varanda, um pedaço de teto, um coberto, só por uma noite pra eu dormir? 



E a estrada que era pra ter sido pega bem cedo, pela manhã e que iniciou após um inédito momento de preparar a bike da Ana para a CicloTrip, bagageiro e bagagem, iniciou tarde. Bem tarde. Faz mal, não. Estávamos na hora certa, no lugar certo para o espetáculo. E a noite, nesta mesma hora certa, teve casinha às margens do lago nos esperando. Por puro capricho do tempo. Que sabia como fazer direito o que parecia torto.

Este tempo é mesmo muito arteiro.



Agora, um dia inteiro, ou meio para ficar aqui, ouvindo barulhinho de água caindo no lago. Galinha da Angola dizendo "Tô fraca, tô fraca, tô fraca, tô fraca". Perus passeando livres glugluzeando. Senhor Peru Branco se achando pavão, dono do pedaço, desfilando exibido se emplumando. Tina & Cia pedindo comida roubada debaixo da mesa, pra depois, sábia e prosa como é, se esticar no solzinho da manhã, debaixo da janela… E, ainda, vendo o revezamento da mesa do café dos passarinhos. Os convidados da casa, como diz o João. 



O tempo é sábio. Sábio é desapressar-se e ficar aqu, num ócio de fazdeconta que faz tudo pra mim.







terça-feira, 9 de julho de 2019

O tempo



O tempo não obedece lógicas.
Não possui regras absolutas.
Não cabe na rasa previsão dos porquês.
Por isso, acredito em surpreendentes histórias que ele inventa.
Não saberia criar enredos que ele cria.
Não escolheria personagens com sua perspicácia.
Não saberia inventar continuidades, nem interrogações. Que sugerem, mas não revelam, totalmente, seus fins.
Não teria a destreza de manter a vida como uma caixinha de surpresas.
Não saberia imaginar todas as surpresas que a vida me apresentou. E não saberia me preservar esperanças que me alimentou.



A vida vai passando da metade e uma avalanche de sentimentos escorrem as paredes por onde passo.
Várias verdades vão pulando pra frente de mim!
Vários momentos de "Eu mereço!" e de ser justo e sincero comigo mesma.
Tempos de abandonar verdades alheias e abraçar as minhas, tão somente minhas.
Tempo de renunciar certezas absolutas e me entregar para a dúvida e a incerteza de tentar o que não tentei, de me permitir erros, me permitir tentar aquele caminho que queria e que em outro tempo, não optei, fugi, abandonei, como se fosse dar certo ir por outro que não escolhi. Apenas fui. E segui.
Tempo de me permitir erros. De poder pisar em solo movediço! Destes que não me dá segurança nenhuma, estabilidade alguma, não me dá certezas de poder sair dali. Mas que me permite justamente aquilo que ele tem de sobra… Mover. Tudo aquilo que ficou adormecido em mim.



Este tempo depois da metade da vida é ousado e, ao mesmo tempo, de uma absoluta lucidez! Porque é quando deixamos cair nossas máscaras, nos despimos dos personagens tantos que pensamos ser quem somos. E, assim, nus e de cara lavada, damos de cara com o que verdadeiramente somos. E, na corrida desapressada que iniciamos, leves, de riso solto e passos certeiros, vamos.

O tempo não nos assusta mais. Nem nos dá mais a nostálgica sensação do não feito. Tudo foi feito. E tudo pode ser feito ainda. A possibilidade é a maior certeza do tempo.


domingo, 17 de março de 2019

O medo


Medo de fins.
Que impedem e bloqueiam inícios.
Medo de inícios que impedem viver.


Medo do caminho.
Que sequer foram percorridos.
Medo de percorrer que impedem de viver.


Medo do novo.
Que não devem ser comparados ao já vivido.
O vivido já passado que impede de viver.


Medo de ser mexido.
Medo de ser incomodado.
Medo de sair do conforto hábito de não viver.


Medo de novas decisões.
Medo de fundir a cabeça.
De não poder usar as mesmas respostas.
Os mesmos comportamentos.
Os mesmos rótulos.
Os mesmos discursos.
Que funcionaram de outra vez.


Medo de fazer palpitar o coração.
Então…
Pra que viver?


Medo de ter atitude e ação.
Será?
Não precisa mesmo, nada, nada fazer?

Medo que faz usar a mesma desculpa de sempre.
Não é hora!
Não estou pronto.
Nãosei. Nãosei. Nãosei.

Será?


Quem dera houvesse a fórmula.
O despertador que indicasse a hora.
Do “está perfeito!”
“É agora!”
Pra dar o start que te falta pra fazer.

O que você não sabe, apesar de saber,
É que o ponteiro certeiro não pára de se mexer.
E não inventaram o botão de ligar o status de “pronto”.
Não inventaram o perfeito momento de ser.

O medo que você sente
É o mesmo medo de toda gente
Só que com outro ingrediente.

É medo de viver!


Medo do fim?
Medo do início?
Quem dera…

O fim, inevitável,
Apenas demarca a exata hora do não mais poder.
O início, intimidador, única forma de passar pela dor.
Única forma de sobreviver.


Medo. Medo mesmo, tenho do tempo.
Este sim não reside num futuro incerto.
O tempo, sim, me cerca o tempo todo.
Me perguntando diariamente
“O que você tem feito comigo?”

Ah… E a esta pergunta, sim, terei de responder…
Hoje.
Porque tão rapidamente ele se vai.
Tão certo, tão cedo, desassossego.
De se ir sem percorrer…