Vamos conversar?

Vamos conversar?

sábado, 9 de setembro de 2017

O avesso de mim


Quando aquieto, penso nas tantas fases, marés, revezes. São idas e vindas. Paradas. E tudo compõe a trama e o avesso de mim.

Engana-se quem pensa que no avesso, encontrará o meu contrário. Na verdade, o avesso é quem contém tudo o que preciso costurar, emendar, ligar fios e cores pra compor o meu “lá fora”! Do meu avesso dependo pra mostrar apenas o que quero mostrar. No meu avesso, escondo meus nós. É onde trabalho intensamente para que esteja perfeito o que eu tenha a oferecer de mim.


Meu avesso é onde eu realmente estou por inteiro. E se nele eu me esmerar em fazê-lo com tal zelo, sabem bem as bordadeiras, exceto pelos nós das emendas, é cópia do lado de fora. Não será um desenho feio, sem forma. Mas o esboço que permite ver o que virá para fora.

O avesso de mim sou eu sem cortes. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Muda o disco


Sou do tempo que ouvir música era de rádio AM. Ou de vitrola, ou radiola. É lá em casa, havia um móvel muito chic para a época, onde via meus pais colocarem discos de vinil para ouvir. E pude ouvir historinhas em disquinhos, também.
Quando o disco por algum descuido riscava, a agulha de tocar não conseguia mudar a volta. E tocava repetidas vezes o mesmo trecho. E quando se gostava muito de uma música só, ficava se colocando a mesma música toda hora. E diziam que ia furar o disco de tanto repetir.

Coisas daqueles tempos.

Tenho de me policiar. Porque cheguei ao ponto de me falar, a mim mesma:
  • Muda o disco!
A gente, se não se cuidar, gera uma repetição de assunto chato. Papo repetitivo. Disco riscado. Aí, é preciso perceber e decidir mudar o disco.

Problemas, todo mundo passa. Mas deixar que eles sejam o principal assunto das suas conversas, vamos combinar… Uma falta de assunto enorme. Chover no molhado. Parecer galinha da’angola que só sabe repetir “tôfraco-tôfraco-tôfraco-tôfraco…”

Eu já tinha a percepção. Mas quando via, lá estava eu, de noooovo, respondendo a um educado “tudo bem?” com a minha conversa fiada. Repetitiva e chata. De “coitada de mim”... Sério mesmo? Sério. Lamuriar dores, males passados, os destemperos da vida. E aí, o monstro só cresce. Infla e multiplica de tamanho. De tanto ser lembrado e falado, ganha uma importância que não tem. Bom mesmo é dar importância ao que tem importância! Lembrar e falar aos outros de coisas boas. Uma coisa puxa a outra. E ao invés de contar pela quinquagésima vez o que de ruim lhe aconteceu, conte tantas coisas boas que lhe aconteceram. Há muitas! É só afiar os olhos pra enxergar…

Ademais, você já deve ter cruzado nos seus bons dias com aquele tipo de pessoa que para responder a um bom dia, grunhe. Não dá um sorriso. Ou conversa apenas lamúrias…

Então. Eu percebi que nestes dias, este alguém era eu! E decidi mudar o disco.

Os problemas acabaram? Não.
Injustiças, fofocas, provações e privações?
Sempre existirão. Mas elas só ganham espaço e tamanho se a gente permitir.

Se nós mesmos agirmos como disco riscado que não muda a fala, a música, a cabeça da gente se enche da mesma frase e passa a repetir feito papagaio. E achando que só isso que existe.

O disco tem muito mais. Outras músicas. E tem até o outro lado pra tocar. Se for um vinil. A vida também. Mudar o disco riscado , uma necessidade. Senão, a máquina de tocar pifa.
Ninguém aguenta a mesma música rodando repetida sem parar. Se o disco não estiver bom, liga o rádio! 

sábado, 2 de setembro de 2017

No fundo, no fundo…


Porque lá no fundo, no fundinho você sabe o que há, o que quer, o que acredita, o que quer fazer…

Um oceano. Profundo. Que quanto mais você mergulha, mais se distancia da luz, mais escuro fica, te tirando a visibilidade do que há. Mas está tudo lá!

Gavetas. Socadas de objetos, papéis, cacarecos. Que acabam obedecendo uma ordem desordenada, mas lógica na cronologia de terem sido atiradas lá dentro. Você espia, timidamente, não vê, mas sabe que está lá!

Arquivos. Mil. De documentos, de fotos. Você lembra vagamente, alguma palavra, o assunto, a época em que foi feito. Porque foi feito. Então, sabe que está lá!

A gente trilha caminhos, semeia palavras e sorrisos, faz trocas, de conversas, de histórias, recebe água e alimento na forma do vivido. Retém o que faz bem. Elimina o que não acrescenta. E segue.

E lá dentro, vão se acumulando o que vai formando o alicerce de nós mesmos. Vem do berço. Arrisca passos fora. Se escancara, retorna, se recolhe. Amadurece. Às vezes, murcha. Desacredita poder continuar. Hiberna. Mas é um recolhimento natural para poupar energia. Como casulo. Que esconde num ovo, para transformar a forma disforme e desatraente que lá entrou. Para no silêncio, na surdina, no recolhimento, sofrer todas as transformações necessárias para, no momento certo, por uma frestinha de nada, iniciar a sua reestreia surpreendente.


Porque no fundo, no fundo de sua essência, nasceu borboleta, ainda que fosse vista como lagarta. E, no fundo, no fundo, cada um sabe como nasceu. O que lhe diz a alma. O que esconde no profundo de seu oceano. O que guardou na gaveta. O que suas memórias se recordam terem fotografado, ou escrito. E não há nada que abafe isso. Mesmo sem ser visto, está lá.

É a discordância ilógica entre o que se é e o que se faz que coflitua a nossa alma. Gera tristeza e frustra. Atrofia asas que foram feitas pra voar. Voos rasos ou longínquos. Não importa o tamanho do sonho. Mesmo porque sonhos não tem tamanho. Tem essência. Importa mesmo é reconhecê-los e buscá-los!


É preciso ousar e ser sincero. Escancaradamente humilde e sincero para, num certo ponto da vida, reconhecer os erros, os descaminhos, decisões mal tomadas e retomar a rédea da vida. E parar de ignorar o que existe lá no fundo, no fundo de si mesmo…

Fotos da galeria de Tales of Light - série da Netflix

Tá logo ali!


Tá logo ali. Só atravessar a porta e ir. Não precisa ser muito longe nem só um pouco longe. Pode ser no quarteirão ao lado, em volta da tua casa, a uma quadra, ou duas, um pouco mais. Pode ser que você chegue andando. Ou de bike. De carro. De transporte. Mas é preciso atravessar a porta.

Toda vez que chego lá fora e sinto o vento levantar meus cabelos, me lavando a face e a alma, me renovo. É um quê que tenho com o vento. Deve ser por ele ser invisível e ser tão presente. Por ser capaz de me causar a sensação de levar embora. Algo cá dentro que precisa ir, ao mesmo tempo que me traz bons ventos. A boa sensação de coisas boas chegando. Traz-me a sensação, também, de lavar a alma. Como aquele desenho de redemoinho movimentando as folhas secas no chão, como se bailassem, sem fim. Fazendo uma faxina lá dentro de mim. Girando, girando e levando.

O vento consegue provocar um movimento em mim que se alterna de manso e delicado, até um vendaval de emoções. Traz recordações. Leva o que me pesa. E me leva junto a flutuar num passeio inocente, inconsequente, despretensioso, por fim.

Toda e cada vez que venço a inércia de ficar parada e quieta dentro de paredes e venho cá fora, não entendo como não venho antes, venho mais cedo, venho mais vezes.
É de graça. É logo ali, de casa. Um “lá fora” que tem em todo lugar. Basta ir.
Um espaço verde com árvores, sol se quiser, sombra se quiser, espaço pra andar, brincar e ficar à toa, de cara pro vento.
Nesta hora, compreendo, tão importante que é ter as pernas e braços amarrados, vez ou outra, pra ser obrigada a parar. Nestas paradas, sem pressa de ir, sem pressa de passar e chegar, sem ter o tempo todo preenchido por coisas a fazer, aprendo o desapressar do tempo. Quando ele mais rico se mostra. Simples e somente porque pego a pressadotododia, a pressadavidatoda e prendo ela em casa e saio sozinha. De cara lavada. Sem olhar a hora. Olho o relógio do sol. Olho que o céu está azul. Olho que o vento passa brincando e mexendo as árvores e ele me ensina uma lição final neste dia.


O vento não precisa ser visto pra existir. Mas é inegável que exista, por ser visto pelo que provoca por onde passa. A sua existência não é vista. É sentida. E é o que ele faz pelo caminho que não deixa dúvida de estar bem aqui.

O que tá logo ali?
Pode ser que seja só o vento. Pode ser que seja o tempo. Aquele que você não sabia quando chegaria. Pode ser que seja uma brisa que te traz, ou o redemoinho que te desfaz. Pra se fazer de novo! Pode ser que seja a oportunidade que está ali fora te esperando, já cansada de esperar você que nunca sai!!! Pode ser que seja a nova conversa com nova pessoa. Pode ser que seja a velha conversa que nunca teve fim. Ou pode ser que seja o caminho do qual você saiu pra descansar um pouco. Ou seja a bifurcação que vai te dar a opção de escolher pra onde vai seguir.

É preciso atravessar a porta. Ir. Porque somos nós mesmos que trancamos a porta. Portas que nos tiram a vista de tantas coisas simples, corriqueiras, ao nosso alcance, que nos permitem beber de felicidade em doses pequenas que não jorram demais, nem se esgotam depressa demais. São coisas muito simples e que reabastecem a gente de energia. Sair e sentir o sol, o vento, o frescor da sombra, mexer o esqueleto de leve, tomar posse da vida. Talvez, o primeiro passo a se dar para ser grato por ela.


Destrancar a porta que te prende num mundo onde você se esconde e se priva de viver. 

domingo, 27 de agosto de 2017

Os res e rés




Estou aqui matutando… O que me faz travar a vida? Ironia do destino, há anos minha coluna não chiava. E quando digo chiar, entenda por travar!!!

A coluna travou. E a vida minha anda travada também. Devem ser sinais! Pra me chacoalhar e acordar.

Faz tempo que não escrevo. E escrever estava sendo um prazer enorme que não entendo o porquê não REcomeçar. Se faz tão bem, tenho de manter comigo! Então, matutando aqui, como há dias tenho feito, tentando me dar motivos para voltar a escrever, pensei logo no “re”. De REcomeçar. De tudo que representa REtorno. Ai me veio o “ré” à mente. E não me soa bem.

Ré me sugere voltar atrás. A coisas passadas, acontecidas. Parece contraditório, já que aguardo poder recomeçar coisas que me faziam bem e me sinto vazia sem elas. Oca. Mas o que busco e desejo é uma releitura que me permita uma segunda chance, sem os mesmos erros. Entende? Não é voltar ao passado, ao vivido. Mas poder colher dele as flores que me perfumaram o caminho. Mas deixar pra lá os espinhos…


Nem sempre estou bem. Costumo escrever quando estou bem. Quando faço descobertas geniais! Ou percebo simplicidade plena que faz bem. Que me permitem extravasar alegria, contagiar de bem a quem lê. Por isto, relutei em escrever neste período. Por isso sumo nalguns momentos. Por me sentir meio sem assunto. E, então, escrevendo agora, percebo que esta mania de super herói é bobagem. Eu sei que posso atingir pessoas que se animam pela leitura de boas histórias, de superação e super ação. Mas a tristeza, o desânimo, vem pra todo mundo. A falta de assunto. A solidão. O vazio. O oco. O eco batendo e ressoando lá dentro… Ecoecoecoeco…

Me desnudo. Há dias em que mesmo estando o céu azul e lindo, sinto faltando algo. Há mil coisas a fazer e vontade nenhuma em fazê-las. Tenho certeza que este silêncio faz parte da melodia. Do diálogo habitual onde um fala, o outro cala, para poder ouvir o que o outro quer falar.


Então. Cá estou. E aí, céu azul, o que quer me dizer?

terça-feira, 4 de julho de 2017

Na carona doutros sonhos!


Duas coisas desegoístas: caronas e sonhos.
Carona é quando você pode ir sozinho e resolve levar alguém. Sem nada em troca. Sem obrigação. E divide o caminho.
Sonhos é aquilo que é do outro, mas que contado, vira um pouco seu também. E vice-e-versa!

Todo mundo tem. Sonho.
Todo mundo de alguma forma pega carona no sonho de outro alguém.
A arte faz bem isso. Numa música, num filme, numa novela, numa peça de teatro, numa dança que você assiste. E na própria arte de bem viver. Mexe lá dentro. Aguça e faz coçar. E a carona é dada.

Já peguei várias caronas nos sonhos de outros. Ouvia, assistia, lia e de longe participava.

A gente passa por estágios, sabe? De ver no outro achando loucura. De se falar que nunca conseguiria. De ter vontade. De duvidar de si mesmo. E de se coçar…

Então, a primeira porta que se abre é espiar lá fora e ver tantos sonhos vividos que começaram parecendo impossíveis. Você ouve as histórias e começa a olhar pra si mesmo. Bem naquela pergunta “Cadê eu?” e começa a se perguntar:

-O que era mesmo que eu sonhava?

Ou outras perguntas cliché que fazem pensar…

-O que quero fazerconhecerantesdemorrer?

Não importa a pergunta feita a si mesmo. Importa a resposta.

O mais legal disso tudo é que não saberia nem nominar tanta gente que me deu carona! E gostoso é, também, oferecer carona um pouco nos meus. Porque a gente se descobre tendo espaço na carruagem da gente pra levar quem precisa um pouco de companhia pra acreditar em seus sonhos e descobre muita, mas muita gente de coração gigante dividindo suas histórias que nos fazem pensar, acordar e ir. Pro nosso caminho!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Mas você vai sozinha?


Pode ser homem. Pode ser mulher.
Pode ser jovem. Pode ser velho.
Toda vez que alguém resolve fazer algo que foge às regras, ou quebra um caminho já esperado ouve esta frase:

-Mas você vai sozinho?

Quem vive colhendo amigos pelo caminho, nunca vai sozinho. Espírito fazedordeamigos faz amigos por onde passa!
Uma experiência diferente, de apego-e-desapego não por não ter importância quem por seu caminho, passa. Mas por haver espaço pra todo mundo!

Quem vive sem economia a vida, tem lembranças de sobra pra lhe fazer companhia, se um dia, noite, semanas passar falando sozinho por falta de companhia no caminho.

Coração de porteira aberta nunca fica trancado pra não entrar gente. Pode até sair quem não faz mais parte deste seu mundo. Mas sempre entra quem faz! Porque porteira trancada nunca prendeu quem já não faz parte. E aberta sempre é passagem para possibilidades…

Se eu vou sozinha?
Sim e não.
Aprendi a gostar das duas coisas e desfrutar o tempo de estar só é não estar.
E nas duas aprende quem assim quiser!

Passar da linha delimitadora e imaginária do sópodepassarquemnãovaisó é revigorante! Imensamente perturbador. Esquisitamente novo. Para sempre renovador!

Você se descobre capaz de muita coisa que nem sabia ser capaz. Descobre que cada dia reserva uma boa surpresa e bons motivos para gratidão. Que mesmo havendo boas histórias passadas, há muito a se viver se você não parar. Que o desconhecido não é um bicho de sete cabeças. Não morde. É que às vezes os bichos que mordem não estão do lado de lá. Mas do seu próprio lado segurando a cordinha pra te protegerem, pra te terem, pra te prenderem e você, sem ver, vai deixando o tempo passar…

Algumas coisas gostaria, sim, de ter uma boa companhia ao meu lado pra dar boas risadas, gostar da prosa e do silêncio, do fazer de tudo e fazer nada, achar difícil, achar fácil e ir passando cada dia. Mas estar sozinha é uma escola de você conviver com sua própria companhia. Aprender a perceber seus erros e seus acertos e querer melhorar e melhorar!

Afinal, tantas viagens iniciadas solo têm de ter um porquê! Não importa quantos quilometros, quantos dias, quantos meses, quantos anos, todo mundo vai na verdade naquela viagem pra dentro. E esta, só você pode fazer...

sábado, 1 de julho de 2017

A pulga que me levou pelo Vale Europeu


A estrada chama.
Mas tem de ter uma chama lá dentro pra te levar.
Chamo de sonho.
Aquilo que atiça, incomoda, feito pulga atrás da orelha... Não pára nunca enquanto você não sai e faz!
Mas só sonho não basta.
Tem de ir!
Talvez, não pensar muito não. Se dá, não dá. Se é perigoso, arriscado, se pode acontecer algo de ruim.
Acontecer coisa ruim, acontece até dentro de casa, no sofá. Como infartar.
Se for pra morrer do coração, que seja de tanto usá-lo, de abusá-lo, de fazê-lo bater muito e rápido de muita emoção!!!
Nunca fui muito de ficar debaixo de um teto, esperando a vida passar!
Sempre fui mais de passar pela porta, sem ter muita idéia do que havia do lado de lá!


Quando ouvia falar do Vale Europeu, por amigos meus, há dez anos atrás, nem me imaginava sobre uma bike. Que dirá passando por trilhazinhas no mato e sozinha.
Quando comecei a ficar atrevida, brilhar os olhos, descobri que acreditar é o primeiro passo pra ir além.
Eu podia ir! Nem que fosse sem ninguém!!!

Então fui. Só fui.

Não tinha a menor idéia como era pedalar com alforges. Tentei com o clipe da sapatilha. Não gostei. Pegava no alforge. Enroscava. Arranquei fora.


Me contavam como era a estrada. Subidaidaidaidaida...
Sem fim.
Pedra pedra pedra pedra pedra. De resbalar e cair.
Que tinha cachoeiras lindas. Rios pra se jogar sem dó!
Que tinha sempre gente acolhedora, boa de prosa pelo caminho...
Eu imaginava. Ria. Queria.

Fui.

Nenhuma imaginação por mais fértil que seja iguala ou ganha o ir-e-ver! Nunca nada arrancará de mim tudo que vivi e passei.

Pode parecer muito pouco perto de viagens que duraram anos, percorreram países, continentes. Mas é a minha viagem. A que eu fiz. É SÓ por isso, ela é a melhor viagem pra mim!!!


Não importa o que você já tenha feito. Importa o que queira fazer! Importa, um dia, olhar pra trás e saber que fez! Importa olhar pra frente e vislumbrar muito mais! Importa olhar no hoje e se enxergar naquele que sinta e saiba ser o seu lugar. Senão, não vale à pena!

Lá no ontem, eu não tinha ideia, nem imaginava, nem saberia o que faria hoje.
Hoje, não tenho ideia nenhuma do quê acontecerá daqui a umas horas, nem daqui a décadas. Mas desenhar o rascunho dos meus sonhos, acreditar que posso, agir para que eu os alcance, me dão uma vontade tamanha de não desistir nunca de acreditar que dá. Da sim!!!


Ter ido me fez escrever mais alguns capítulos da minha vida, de próprio punho, sabe? Sem pedir dublê de corpo, de coração, de alma. Vivi tudinho, eu mesma, intensamente...

Esta viagem, eu escrevi. Não publiquei na época. Não entendia o porquê.
Descobri depois.
Ela serviria pra convencer pessoas que não se acreditam capazes de ser, essencialmente, sinceramente, genuinamente o que são.

A primeira da fila????

Eu. Eu mesma.
Porque às vezes, os olhos perdem o brilho, a alma se cansa e a gente quase desiste... E reler o que sou, de verdade, com toda sinceridade que escrevi, me fez reacreditar... Em mim!


Estou no processo de finalização deste livro. Desta historinha maluca de ir sozinha pelo Vale Europeu. Tenho de contar pra todo vento!!! Porque quando a gente descobre algo muito bom de fazer, quando a gente descobre que escrever esta boa prosa faz parte do "espalhar pulgas atrás da orelha" de muito mais gente, a gente percebe que tem, sim, por a cara a bater, escrever, contar pra todo mundo!!!

É o que pretendo fazer!!!

Circuito do Vale Europeu - Eu e Deus.
Uma mulher, uma bicicleta, uma viagem

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Deixa molhar, quando a chuva vem…



Tem dia que acordo com nó na garganta. Um incômodo que não sei bem de onde vem. Aí, as horas vão passando, sem eu entender o porquê.

Tem dia que é assim. Por mais que minha opção seja sempre de ser feliz e sei que tenho uma centena de motivos pra isso, pra não exagerar e dizer milhões, tem dia que acordo assim. Triste. Vontade de chorar e qualquer música mexe comigo. Qualquer letra é suficiente pra me fazer pensar nas coisas que não compreendo porque não acontecem.

Triste o suficiente pra qualquer fiozinho de conversa fazer o olho marejar. E até quase sentir peninha de mim!!!

Entro no carro e, off course, não ponho aquelas músicas de viagem, de pegar estrada com som alto e dançando no volante. Ponho logo aquelas listas de Spotify separada pra quando estou calminha, ou quietinha. No caso, hoje, emimesmada.

A lista de músicas começa com uma que, parece, cavuca dentro de mim o sentimento e pensamento pra eu acreditar que é assim mesmo! “Deixa molhar, quando a chuva vem…”

Assim mesmo me sinto!

Às vezes a chuva vem e me deleito com ela. Vou junto. Deixo ela me molhar. E tiro dela meu melhor.

E, às vezes, só às vezes, demoro pra entender que quando a chuva vem, não é pra eu brigar com ela. Ficar triste por não ter o sol. É só é tão somente pra eu deixar molhar…

Tristeza vem. Mesmo pra quem não escolheu a tristeza pra ser sua companheira. Dura um pouquinho, ou pouquinho mais. Vem lá de dentro, que sem querer mas por querer, uma lágrima solta que começa enxergar beleza na tristeza. Enxergar nas gotículas de chuva, prismas coloridos de luzes que sem chuva ou lágrima, não se vê.

Um dia, vou entender certas coisas que não entendo. Ou não. Chuva de qualquer jeito, lava a sujeira dos caminhos existidos. Lava a alma também. Acredito.

https://youtu.be/s2IAZHAsoLI
Felicidade - Marcelo Jeneci

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Quero mais caronas!


Tô com saudade das minhas caronas!
Sempre que me arrebento e não posso dirigir, recorro a caronas!

Vou contar esta história.

Pra quem me conhece um pouco e sabe do histórico, não é novidade. De tempos em tempos, estou me recuperando de algo. Invariavelmente, fico sem dirigir.

Nesta época de Uber, fica facin facin ir-e-vir de carro pra onde precisar. Mas as caronas… Eita, desculpinha boa pra estar perto de amigos!!!!

Ixi. Será que meus amigos vão ficar brabos com isso?

Pedir ajuda é das melhores coisas que se aprende nestas marés de não poder fazer tudo sozinho. Diria que é uma virtude, mais do que uma fraqueza. Quando se enxerga a si próprio, incapaz de fazer tantas coisas que sempre fazemos sozinhos, que há tempos não precisamos de ajuda, é uma viagem no túnel gostosa e interessante.

Aprendemos a ser muito independentes. Exageradamente, independentes. Eu mais ainda, filha da Dona Estela, tão feminista é cheia de me ensinar a me virar sozinha desde cedo! É bom isso. E não é bom.

É bom aprender fazer de tudo um pouco, ir de peito aberto e não ter medo. Isso ela me ensinou bem. Mas existe um ladinho do coração que pede aconchego, colo e carinho. Um ladinho que fica até com medo de precisar do outro. De pedir ajuda. De mostrar pro outro que ele é necessário na vida da gente. E com isso, criamos muros da independência! Muros que distanciam pessoas próximas porque ninguém mais precisa um do outro nem pra ir junto logo ali, nem pra fazer coisas corriqueiras, tomar um café, ir no mercado, ir-e-vir.

Ops. Corrijo. Café com prosa sempre é bem melhor. Sozinho dá, mas é sem graça! E quanto ao ir-e-vir… Ahhhhhhtahhhhhhhh… Redescobri!!!

O quadradinho preto nestas horas tem sua boa função! Nestes meus períodos de “convalescença” disso-e-daquilo, seguidas vezes, ressucitei este recurso. Tipo… “Como você tá de horário amanhã?” “Tenho médico amanhã, você poderia me dar uma carona?”

Meus amigos que o digam!!!
Foram várias, várias mensagens e telefonemas nestes dias! Explico. Quando não posso dirigir, loooooogico, vou andando a pé pra todo canto que preciso. Mas quando até nisso estou proibida, impedida, a carona é um santo remédio. Ops. Recurso. Ops. Remédio mesmo! Porque não é de ir-e-vir só que se trata uma carona… É muito mais!!!

Caronas carregam pessoas de-um-lugar-pra-outro. Certo? Errado!
Caronas abrigam conversas! Reatam laços. Aproximam na desculpa de ir ajudar a amiga aleijadinha, de novo, mas o que fazem de melhor é juntar pessoas, desenrolar boas prosas, ver gente que fazia tempo que não via, ver gente que gostaria de ver mais vezes, ver gente que quero ver sempre!!!

Caronas são uma desculpa boa que precisei pra uma coisa e me fizeram bem pra outra. Precisar do outro é um aprendizado rico. Pedir ajuda, algo esquecido neste mundinho tão auto-suficiente. Muita gente que não arrumaria tempo pra uma visita, arruma quando é pra ajudar! Quer coisa melhor? Saber de corações tão bons dispostos a ajudar???

Vou já avisando! A todas as minhas caronas! Irmã, aluninha que alfabetizei, colega de trabalho de quinhentos anos atrás, professora que virou amiga, colega de facul, parceiro de pedal, vizinha que virou amiga, gente que aparecia de nada… Não pretendo me quebrar ou arrebentar de novo! Mas olha que minto uma mentirinha se for pra raptar uma conversa boa de novo com vocês!!!

Se receberem uma mensagem, ou um telefonema, “quero carona” de novo, pode ser que seja um trote!!! Só pra ter de novo a companhia boa por algumas horinhas!!!!

Em tempo.
Tantos carros trafegando nas ruas com uma só pessoa dentro. Sozinha e solitária. Tempo bom era quando enchíamos o carro (até o porta-malas!) pra ir-e-vir pra facul, ou de um centro ao outro na UEL, nas andanças por aí, carro de pobre e rico de conversa e vida!

Quem nuca andou com o carro atolado de gente, gente sentado em cima de gente, no colo, apertado, tudo duro de grana, mas tudo junto por uma boa causa, uma boa festa, não perder a hora da aula lá longe???

A gente tem de derrubar os muros! Muros de aço nos carros, redescobrir quem vai perto, quem poderia ir junto, encher o carro de novo, estreitar laços com vizinhos, amigos, colegas de trabalho, de facul, passar mais tempo conversando e se aproximando…

Não adianta nada ter ganho segundos, minutos e horas, cada um tendo seu carro próprio, pra levar mais rápido num caminho que você vai sozinho.
Ainda penso e acredito que o caminho é mais gostoso quando se vai junto de alguém!

A carona me faz bem!!!

sábado, 24 de junho de 2017

Se permita!


Dias destes recebi duas visitas amigas.
Andaram lendo minhas historinhas.
Cutucou. Remexeu. A pulga pulou pra trás da orelha delas!
Adoro isso!

Quem colocou a pulga atrás da minha orelha pra fazer o que faço hoje foi Rubens Portugal. Um mestre. De olhos vidrados de brilhante. De fala apaixonada pelo que ensinava. Acreditava no que dizia. E atiçava! Me provocou. Me desafiou! E conseguiu, mesmo que tão demorado, fazer com que eu me mexesse. Porque acreditava, me fez acreditar também! E fazer o que ele dizia que eu deveria fazer… Escrever!

Tive mestres que escreviam também. Outro Rubens sem o “S”. Rubem Alves Cujas histórias, eu devorava! Encantava-me a possibilidade de se contar a mesma história de formas tão diferentes! Metaforicamente! Torna cada história, uma vestimenta que cada um veste de acordo com o que enxerga na sua própria vida! E de tanto ler assim, assim fiz! Historinhas vestidas em metáforas…

Sobram luzes piscando.
Faltam olhos brilhando!
É preciso acreditar mais e discursar menos.
Sair na surdina, no segredo e ir. Só ir.
Porque indo, se faz! Muuuuuito!!!

Sonho só é bonito se fizer despertar!
Pois se continuar dormindo, o ponteiro do relógio anda. Sem parar…
Sonho que não faz acordar vira pesadelo. Aquele que se arrasta a vida inteira, como peso. Que faz você inventar desculpa o tempo todo, do porquê não saiu pra vivê-lo!

Muita gente passa a vida reclamando “não fiz isso, não fiz aquilo” jogando a culpa em alguém que trancou a porta e levou a chave embora. Só não contou que este alguém foi ele mesmo.

O tamanho da distância entre o olhar como plateia e o atuar como protagonista é só um! O da auto permissão! Inventar desculpa de “não fui fazer porque não me deixaram” é pura balela. Já parou pra pensar? É isso mesmo? Trancaram a porta? Ou foi você mesmo?

Fica fácil se justificar vida afora que a culpa não foi sua de um sonho não ter acontecido. Quero ver é explicar vida adentro!

Por fim.
Não adianta virem abrir a porta se você não quiser passar!
Não adianta inventar desculpas pra justificar o que você mesmo nunca compreenderá.

É somente quando você passa pela porta que divide o que era dúvida do que pode ser, do talvez e do será, que você pára de nhenhenhem e se permite fazer, é que realmente saberá o que é capaz!

Se permita.
É só você que fica fechando a porta, com desculpa boba para não passar!
Falta de tempo, de dinheiro, de companhia, de conhecimento…
Tempo? Fazendo ou não fazendo nada, ele se vai.
Dinheiro? Ganhando muito ou pouco, ele se vai.
Companhia? Indo ou ficando, tem-se e não tem.Se estão, se vão. Se vão, estão.
Conhecimento? Nenhum conhecimento supera aquele de estar lá construindo novos saberes. Se você ficar, ele estagna. Se você for, ele se renova.

Existe algo mutante no conhecimento que me fascina. Ninguém sabe o que não aconteceu ainda. O que dizem ser, já foi. Dizer que é, é mera especulação. O conhecimento é vivo e só acontece, de fato, na junção da pessoa no espaço e no tempo. Conhecimento é construído ao vivo! Senão você é somente leitor do conhecimento dos outros.

Ler é bom. Atiça. Mas ir escrever sua história, melhor ainda. Abra a porta. Suba no palco.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Cinquenta, sabor de Noventa pra quem tenta!


Sempre me joguei!
Sempre fui de correr o risco.
Mesmo que soubesse que poderia doer.
E doía!
Mas a dor sempre era uma companheira amiga, que não me largava e me anestesiava.
Como música...

Perdi algumas coisas no caminho.
Compliquei algumas outras no esqueleto aventureiro!
Mas... O que de coisas que ganhei....

Não tenho dúvida!
Faria tudo de novo!
Não é cliché. É real!

Não gostaria de chegar aos meus noventa anos intacta.
Sem arranhões. Sem lesões.
Sem ter passado por dores, medos e dúvidas.

Estou com cinquenta. Que valem por cem!
Na metade do caminho com o gosto de ter percorrido muito mais.
Talvez o dobro?

Tive medos. Tive dúvidas.
Dores imensas.
Mas tenho o coração repleto de saúde.
De vida vivida.
A certeza de ter ido buscar o horizonte longe...

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Encavernar... Sem hibernar!


Necessário. Coisas pendentes.
A conversa está muito boa aqui fora. Muito boa mesmo! Gerou visitas, cafés, longas prosas com gente que não via há anos, com gente nova que conheci na rua, no lago, debaixo do pé de abacate, passeando com meu dog.

Bom que não é uma caverna triste. Recolhimento vindo de fora pra dentro. É algo que estou escolhendo fazer para dedicar o tempo para algo importante também. Desejo de dentro pra fora!

Tenho certeza absoluta. Nada é por acaso! Reativar meu Blog redespertou em mim o que sempre fui. Me redescobri uma contadora de histórias! Que definiu a minha profissão de origem. Aquela que me fazia ser alfabetizadora, cheia de historinhas pra contar pra ensinar as letras. Contava histórias fazendo caretas exageradas, fazendo suspense, causando risos, risadas e espanto. Só pra fazerem se lembrar daquilo que ensinava. Funcionava!

Da escola para a vida, continuei contando histórias de outras formas. Numa prosa. Em cartas. Escrevendo o que via e vivia. E, pé na estrada, descobri que levava comigo, muita gente que ia lendo e viajando sem sair de casa, só de acompanhar as minhas narrativas!

Então, fui pra estrada! De um jeito diferente... Sozinha, em cima de uma bike, pedalando e escrevendo dia por dia pra poder contar com o coração quentinho o que vivia. Num livro! Que está quase pronto...

Eu estava terminando de escrever esta história mais comprida, quando parei pra começar contar histórias curtinhas. Estas do Blog. E este tempo foi tão bom... Foi como se tivesse ido pra varanda de casa, aproveitando toda oportunidade de boa prosa com quem passava ali na frente. Agucei meus olhos. Refinei os meus sentidos. E estiquei dedinhos de prosa. Proseei pelas palavras...

Agora, o coração me chama de volta. Pra acabar de contar uma história que mudou minha vida! Me fez viva. Me fez renascer das cinzas quando eu já não mais acreditava ser viva ainda.

A vida ensina. E sempre nos coloca no caminho que temos de passar. Para acabar de escrever o livro, tive de reler tudo o que eu havia escrito durante a viagem. E aquela personagem que eu descrevia me trouxe de volta à vida!

Era eu mesma!

Eu andava tão esquecida como era ser daquele jeito, que ao reler o que escrevia, me reenxerguei.

Vou voltar pra aquela história. Porque conto ela pra mais pessoas ouvirem. Como filho, decidi ter. Fui viajar pra escrever. Ou vice-e-versa. Sozinha na estrada, tive pessoas que conheci no caminho, que não me deram somente abrigo, alimento e carinho. Foram personagens numa história que fui escrever de corpo presente. Desbravando lugares nunca passados, sem ter a menor ideia do que encontraria no dia seguinte. Nem lugares, nem pessoas. Onde dormi em varanda de casa vazia em noite de tempestade, ganhei almoço de quem nunca vi e nunca mais vi. Que me fez cantarolar e conversar por quilômetros e quilômetros. Comigo mesma. E com Alguém que cuidou tanto de mim.

Vou terminar um livro! Não é um objeto de vaidade de troféu, agora vejo. Transcrever palavras é uma deliciosa aventura. Uma forma mágica de dividir viagens com quem não pôde ir ainda. Só ainda. Porque quando contamos nossas histórias, já atiçamos os olhos atentos que nos ouvem e sabemos estar plantando a semente do desejo, da vontade, do sonho que vira projeto. Mas ao colocarmos as palavras escritas, elas ganham a mágica de atravessar o tempo, o espaço. Mesmo que não possamos estar contando ao vivo as histórias, elas alçam vôo e vão! Ganham pessoas que ganham mundos…

Escrevendo me encontrei! É isso que quero fazer. Abrir janelas. Mostrar o “lá longe”. Que pode virar perto, se quem ler atravessar a porta.

Vou pra caverna. Mas não vou sumir de vez! Vou fazer reposts eventualmente. Talvez, postar umas espiadelas rápidas nesta viagem que fiz e que me ensinou como sou mais forte do que pensava. Capaz de ir sozinha sem estar solitária. De subir morros intermináveis sem parar, nem desistir. De descobrir cachoeiras na prosa boa do café à toa e ir a lugares mesmo que não esteja no script. E de poder fazer, mais que a viagem exterior encantadora, a viagem interior reveladora… E estar eu e Deus numa conversa sem fim!

O balcão de desinformações


Uma cena (de novo!) me chocou nesta semana. Fui a um laboratório fazer exames. Havia um primeiro balcão para informações. Balcão alto, uma mocinha nova lá dentro, sentada, uma tela de computador a sua frente para fazer o primeiro atendimento de quem chega, gerar uma senha e entregá-la.
Um robô. Nem sorriso. Nem bom dia. Uma urgência em falar algo rápido a quem atendia e grudar os olhos de volta a sua ferramenta de trabalho. Ops. De destrabalho!

Sua função não é lá, complicada, desmerecida, nem um pouco. Quem faz bem qualquer função que lhe seja atribuída, tem mais chance de fazer bem tudo que lhe for proposto. Com grandes chances de crescer em tudo que lhe for confiado.

Mas aquela mocinha…

De posse da senha que ela me deu, sentei-me numa cadeira muito próxima ao balcão. Foi inevitável. Estiquei o pescoço. Era só pra confirmar o que já sabia.

Sua ferramenta de trabalho, aquela tela pra onde ela voltava, apressadamente, após balbuciar qualquer coisa e entregar a senha tinha um “f’ no canto.

Na hora, pensei cá com meus botões. Com aquele início de frase igual a uma velha...
-"Antigamente", neste tipo de trabalho onde se fica uns intervalos com tempo ocioso, as pessoas liam livros. Outras senhoras atrás de balcão, faziam crochê. Mas aquela expressão hipnotizada daquela mocinha que malemá atendia, malemá interagia com quem atendia foi de doer.

O tal balcãozinho de informação é o primeiro contato daquela empresa com seu cliente. E a mocinha estava mais preocupada em bigbrothear a vida alheia na rede social do que em trabalhar 100% do seu tempo presente no seu serviço.

O que está acontecendo com este planeta?

Ela só se desligaria daquilo se estivesse sendo vigiada? Ou proibida? Ou se tivesse acesso bloqueado às redes? Trabalhava? Ou destrabalhava? Enganava. A quem?

Não pode ter um tempinho de bobeira, uma ida a um cafezinho, ao elevador, de uma sala a outra, que o que se vê por todo lado é uma urgência em pegar a caixinha preta e olhar, olhar, olhar e olhar… lá dentro! Nada, cá fora!

Não é a primeira vez. Não é só a mocinha do balcão. Tem muita gente viciada na caixinha preta. Que não desgruda nem pra ir ao banheiro. Nem é capaz de desgrudar os olhos da tela para atravessar ruas. Andar na calçada. Sentar à mesa pra comer em família.

Vive conectado com o mundo do lado de lá.
Não tem nem ideia alguma do que acontece do lado de cá…

Quantas serão as mocinhas do balcão de informação...  Mergulhadas numa hipnose de pura desinformação???

Talvez tenha de se mudar a plaquinha. E grafar:
"Desinformações"

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Desliga. E se liga!


Não sou das cavernas. Mas necessito encavernar nalguns momentos. É quando silencio e enxergo certas coisas que acontecem por aí...

Gosto e uso tecnologia. Mas também gosto de sair de mão abanando, sem segurar caixinha preta alguma, livre de sonzinhos apitando, me avisando de tudo que pede pra ser agora o que pode esperar um pouco.

Adoro estar conectada com pessoas que reencontramos e falamos por meio da tecnologia, quando estaríamos perdidas e longe. Mas prefiro estar conectada a elas ou com pessoas com quem cruzo na rua, no lago, no parque, no aterro, ao vivo! E não online.

O mundo lá fora me chama! E já fui e irei muito mais ainda adiante. Mas o lugar melhor do mundo ainda é onde estou no exato agora. E isto não me impede de sempre ir além, além e além. Estar lá longe, me rouba de estar aqui. E aí, não estou nem lá, nem cá - Incoerente isto, não acha? - Estar em qualquer lugar do planeta, distante, e estar ausente de onde estou?

Não é não???

Posso falar e ver pessoas no outro lado do planeta. Mas aquele ao meu lado é ainda mais importante do que pessoas lá longe que nem conheço tanto assim.

É uma matemática estranha. Que, sinceramente, não entendo.
Tem-se o mundo nas mãos, na ponta dos dedos. Conecta-se a tudo, lá longe.
Mas vive-se presente ausente.

Sede gigante de ser visto e se ver um mundo freneticamente fotografado, filmado e contado online. E vejo um desligamento total, doentio, offline permanente ao que está na ponta do nariz.

Urgente! Urgente!
Desligar. E se ligar.
Aqui. E não ali!

domingo, 18 de junho de 2017

Cadê eu que se escondeu de mim?


Já aconteceu com você? Ou acontece?
Parar e pensar “onde estou”, “cadê eu”???

A vida vai engolindo as pessoas. As pessoas vão indo, indo. E, de repente, se flagram não se reconhecendo. Num sentimento de serem estranhas a si mesmas. Como se estivessem num corpo que só faz coisas que não faria, se pudesse escolher, que vive uma vida esquisita que não é a sua. E o pior de tudo, não podem culpar ninguém. Por mais que outras pessoas tenham estado junto neste caminho estranho, caminharam com seus próprios pés…

Algumas vezes, foi um erro de percurso. Como se tivessem permitido um “piloto automático” em suas vidas que seguiu regras e comandos estipulados para uma vida “padrão”, mas que não se parece com a que teria se tivesse dirigido o tempo todo acordada.

Noutras, uma fuga! Sabia-se bem que o caminho tomado não era o seu. Mas era o mais fácil. O esperado por todos. Menos por si mesmo. Um caminho sem grandes obstáculos. Nem desafios, nem a sensação de superar nada. Morno. Cinza.

Em outras situações, uma caverna necessária. Percebe-se não estar no caminho. Percebe-se estar distante do que gostaria de estar fazendo. Mas consegue se perceber num momento de recolhimento. Um encavernar pra logo sair. Para o caminho certo.

De toda forma, melhor se flagrar escondida de si mesmo para se iniciar a descoberta deste eu que esteve dormindo. Uma espécie de anestesia que uma hora, acaba e aí dói! Pois estar na vida a base de anestésicos que te mantém sob controle, bem quando lá dentro tudo está errado, machucando, é forçar e forjar uma farsa.

“Cadê eu” num primeiro momento pode ser um susto. Uma frustração gigante. Um medo aterrorizante de se descobrir fora do seu trilho. Mas, certamente, é o primeiro passo pra retomar o prumo e o direito de se encontrar no mundo…

P.S. Algumas pessoas que têm lido as histórias que venho escrevendo têm me dado retorno por mensagens. Batemos um papo a partir disso! A conversa que sempre gostei e intencionei haver com o Blog tem acontecido, assim. E esta particularidade mágica das palavras tem mexido com as pessoas. Mais ou menos neste tipo de indagação: “Cadê eu?”. Por isso, hoje acordei com esta frase na cabeça. Uma prosa com estas pessoas...