Vamos conversar?

Vamos conversar?

sábado, 10 de junho de 2017

No botão tem OFF e ON


Nunca posso dizer o que tem lá naquela curva à frente sem ir até ela.
O caminho pode estar embaçado, nublado, difícil de enxergar. Mas de qualquer jeito, debaixo do pé, você só enxerga quando pisa no exato lugar.

Caminhos de longas retas, já passei. A Patagônia é assim. Você vai, vai e vai e parece não ter fim. E nunca chegar. E você só continua porque sabe onde quer chegar.
A reta pra mim é monótona. Mas se souber onde vou, sigo.

Gosto mesmo é de estradas cheias de curvas que se insinuam numa brincadeira faceira de esconde-esconde. Nunca revelam demais. Nunca escondem tudo. Insinuam o caminho.
Você segue, segue, segue de curioso que fica, ligado o tempo todo, querendo saber o que tem ali. Logo ali após aquela próxima curva.
Será que acaba a estrada? Será que o caminho segue longe?

Não sei.  Tenho de ir pra saber!

Já subi a mesma estrada andando. Já subi correndo. Já subi me arrastando, mas feliz. Já subi de tudo que é jeito. Na canela, sobre a minha magrela, em Fiat Uno sem tração, e em 4X4. Esta aí da foto. E mesmo tendo a estrada na palma da minha mão, nunca sei o que vou encontrar ali na frente.

As curvas já decorei. As subidas, as descidas já sei. Todinhas!!! Mas aí, sobre mim é que não sei!
Como a história do rio, sabe? Que um mesmo rio é uma mesma pessoa nunca se encontram do mesmo jeito?
O rio muda. A pessoa também.

Estou na estrada há meio século. E algumas estradinhas especiais por onde passo parecem me conhecer bem.
E mesmo assim, nunca sei, elas nunca sabem, como será no próximo encontro...

Este trecho da estradinha de acesso a Tainha, em Bombinhas, faz parte da minha prova dos sonhos. INDOMIT. Já fiz três vezes em dupla. E sonho fazer solo, um dia.

Estar de fora observando não significa que tenha desistido. Pausa faz parte da melodia. OFF é outro ladinho do botão do ON. Na normalidade do andar da carruagem, estaria nos preparativos desta prova que acontece sempre em agosto.

Sou tão apaixonada por este lugar, são tantas é tão significativas as histórias que tenho daqui que já escrevi muitas histórias sobre isto. Me declaro ser de Bombinhas. Pois somos do lugar que o coração escolhe.

Vou pensar assim. Estou na estrada. Isto importa. À frente, ainda há uma cerração baixa que me atrapalha um pouco seguir como gostaria. Mas não é um impedimento definitivo. Pois mesmo quando ouvi isto uma vez, um "nunca mais", laaaaaaá dentro de mim, a vontade não morreu.

Acho que ela não morrerá nunca. Irá junto comigo pra onde quer que eu vá!!!
Acho bom irmos juntas neste solo um dia!
Vou teimar até o fim.

Dedinho de prosa...



Tem as conversas de cachorro. Que já contei. Aquela que começa com:
-Qual o nome dele?
E que passei a começar por:
-Qual o seu nome?
Pra depois perguntar o do cachorro.

E tem a conversa de abacate.
Explico.

Nas minhas andadas matinais falando “bom dia”, passo costumeiramente por uns pés de abacate. Lógico. Cato alguns. Aqueles que de maduros caem do pé, no ponto de se comer! Moro nas proximidades de um pomar a céu aberto e sem cerca. Pitanga, acerola, goiaba, amora e abacate, como sempre que quiser do pé!!!

Estou lá eu, com o Tufo (meu cãozinho) no meu ladinho, olhando pra cima. Pros abacates lá em cima. Como se esperando algum maduro, grandão cair bem naquela hora pra eu pegar.
Para do meu lado e começa olhar pra cima, uma senhora.

-Bom dia!

Tímida, responde:

-Bom dia…
-A senhora gosta de abacate?
-Nossa… gosto muito! Mas não dá pra apanhar, né? É muito alto…

Apontando uns dois caídos no chão eu falo:

-Tem dois ali caídos. A senhora quer que eu pegue pra senhora? Às vezes tem um machucadinho. Dá uma rachadinha quando caem. Mas se tiverem caído recente, estão bons. Eu sempre pego!
-Mas você não vai pegar pra você?
-Não! Eu tenho em casa. Eu pego pra senhora!!!

Feliz da vida, ela fica me olhando descer a ribanceira. Fica até bisbilhotando se tem mais abacate caído. Gostou da brincadeira de caçar abacate no chão. Acho dois. Só. Volto e ponho num saquinho e dou pra ela.

Nós duas voltamos a olhar pra cima como se pedindo pra cair mais algum. E… Cai!!!! Um bem grandão! Feito criança, felizona da vida ela comemora. Vou que nem cabrita, pulando de volta pro barranco pra pegar.

Ela insiste. Gostou mesmo da brincadeira. Fica caçando nos galhos baixos, algum que a gente consiga alcançar. E não é que a danadinha acha? Não exatamente alcançável. Mas a gente dá um jeito. Trabalho em equipe! Eu meio aleijadinha ainda do ombro, sem conseguir esticá-lo, me estico inteira e puxo o galho. Ela se estica toda, na ponta do pé, puxa, puxa, puxa até que “crec” apanha o abacate.

Era só o início da prosa…

Ela me conta que mudou-se pra redondeza há duas semanas. Que não conhece ninguém ainda, fora o porteiro de prédio. Que morou muitos anod no centro velho. Num prédio numa região central onde ele conhecia tudo e todos. Desde a mocinha do mercado da esquina, o povo da padaria, os vizinhos, os passantes que moram ou trabalham na região.

Lá, na nova casa, não conhece ninguém ainda. Sente-se sozinha. Estava se sentindo muito deprimida naquele dia e como se dando um salto pra pular fora deste”escuro que engole” resolveu ir dar uma volta. E topou com o pé de abacate carregado… E eu ali embaixo olhando pra ele!

Conversamos de tantas coisas… Eu tagarela falei um bocado. Mas o mais gostoso foi ouvi-la falar… Quando finalmente nos apresentamos, nome e nome, eu contei a velha história do meu nome pra ela não esquecer. Não precisava! O meu nome era o mesmo de uma velha amiga, feito irmã mais velha, quase mãe, que cuidou dela quando pequena. Ela até se emocionou… Pela lembrança. Pela coincidência. Ela realmente precisava de um bom dia, duma prosa, de um aconchego, de se sentir conectada a alguém.

Costumo dizer que nestes “bons dias”, a gente cruza com muita gente que vive na solidão. Que, talvez, a gente seja a única pessoa que ela converse, exceto o porteiro do prédio, se morar em apartamento. Às vezes, a única voz que lhe dirige a palavra, que lhe empreste o ouvido pra contar lá aquelas suas velhas histórias. As de sempre. As tão gastas pelo tempo. Mas as suas vividas e que lhe fazem lembranças, sorrisos e até lágrimas de saudade…

Outro dia, no mercadinho da esquina de casa, eu a reconheci passando por mim!

-Dona Marina!!!!

Ela olhou assustada, abriu um sorrisão e falou pra menininha ao seu lado, sua netinha:

-Esta é a moça que falei pra sua mãe que eu conheci outro dia!!!

Me deu um abraço - e que abraço gostoso!!!! - confirmou que recebeu os abacates que deixei na portaria de seu prédio um outro dia e falou de novo como tinha ficado feliz de me conhecer e de conversarmos...

Dona Marina não fui eu que lhe dei atenção naquele dia. Fui eu que recebi. Recebi o presente de mais uma amiga. O café que combinamos ainda está no “qualquer dia…” Mas sempre que passo no abacateiro, dou um jeito e acho algum e levo pra ela. Deixo na portaria e deixo um bilhete.

Na maioria das vezes, quando a gente acha que está fazendo algo por alguém, a gente vê que se engana. São eles que nos presenteiam com um sorriso ou um abraço tão sincero que a gente fica o resto do dia leve, flutuando, com um sorrisão estampado no rosto...

Você... Incomoda ou se acomoda? (Um feedback do post do ET)


As historinhas estão rendendo boas conversas! E novas histórias!

Dias destes, conversando com um amigo sobre a historinha do ET, como ficou conhecido o post “Você é da multidão?”,
http://clicandoeconversando.blogspot.com.br/2017/06/voce-e-da-multidao.html?m=1
ele foi me escrevendo suas considerações, tópicos, suas indagações, parecia até uma conversa dele com ele mesmo sobre o que o texto provocou.
Numa, ele escreveu esta frase que me instigou! Dava outra história…

“Incomoda os acomodados!”

Multidão se acomoda, vai no vácuo.
Quem não é da multidão foge à regra!
Quem não é da multidão incomoda…


ETs, definitivamente, sobressaem à multidão.
São tão salientes visualmente, ou em seu comportamento diferente que incomodam.
Recusam seguir padrões do “comum” pois percebem que este comum não é exatamente “normal”. Contraditório?
Não. Muitas vezes ser anormal, atípico, atemporal, é o ser genuinamente correto.


Sabe aquela história que “todo mundo leva vantagem em algo”, ou “dar um jeitinho em tudo”? Então. Ser ET é nadar contra esta maré do “todo mundo faz” se isto não corresponder aos seus valores e princípios humanos. Entende? Os humanos estão se desumanizando. ETs parecem ser a parte sobrevivente que mantém-se com coração de carne que sente de verdade, pensa com o coração e age! Acredita no inacreditável, não espera cair do céu, contraria o que não lhe serve, se preocupa com o outro e, naturalmente, vive se metendo em ações que fazem a diferença para o outro ali ao lado. Espécie em extinção!

E conversa vai, vocês vem, descobri muitos amigos ETs. E melhor: muitos ao lerem, se identificaram e se descobriram ETs também e vieram me contar!!!

-Nossa! Me senti até mais normal, depois que li.

-Pensei que eu era a única que me sentia um ET!!!!

-Muitas vezes, eu me sinto. Não suporto esta coisa de seguir moda. De fazer tudo igual.

-Esta massificação de valores “no atacado” é suspeito. Todo mundo faz, todo mundo gosta, todo mundo usa…” Porque neste bolo, ninguém pensa, sente ou avalia.

Tem muita gente vivendo no piloto automático. Liga o botão de imitar, repetir, repetir, repetir e desliga o de pensar e discernir.

O que acontece?

Qualquer comportamento que fuja ao da multidão incomoda. Desvia a atenção do óbvio. Atrapalha, oras bolas! Porque imitar e repetido é tão automático que se algo acontecer fora desta repetição vai causar uma pane, curto circuito no mecanismo.

Bom parar pra pensar.
ETs ou multidão?
Você incomoda ou se acomoda?

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Ser feliz é uma ação. Ou reação?


Ser feliz não é exatamente o estado de graça perpétuo vendido em novela, em romance de cinema em conto de fada que termina com um happy end para sempre.
Não. Não é.
Ser feliz mais do que uma expressão no rosto é uma decisão de vida. Uma ação.

Não é tão no sense como parecem mostrar tantas selfies por aí. Segurar o celular, sorrir e postar é fácil. Laaaaaaá dentro da alma, sim, você sabe melhor do que ninguém como vai o teu termômetro de felicidade.

E clichés do tipo "O que te faz feliz" acabam por mascarar e pintar um sorriso estático. O corpo está estático! E ação é o oposto desta inércia mascarada.

Sabe quando sou feliz? Quando realmente faço algo que nasceu lá dentro de mim! Não importa o tamanho da impossibilidade, da dificuldade. Ou do estranhamento que possa causar. Quando não há mimimi. E, olhe: quanto mais simples, mais me faz feliz!

Mas estar feliz, a gente descobre, não basta. Esta sensação passa. E é só quando você reparte, compartilha, “divide” que ela se multiplica. Você pode estar no topo do mundo. Se você não tiver com quem dividir este momento, este sentimento, a alegria se vai com o vento.

Ter oportunidade de topar com pessoas no caminho que flutuam contagiando aos outros de levezas, que ensinam felicidade por ações é o tipo de coisa que acende um sorriso no meu rosto. Muitas vezes, uma gargalhada, uma risada rasgada no rosto que demora a ir embora… Estas já descobriram que felicidade não se guarda a sete chaves no peito. Que é na hora que você deixa ela ir livre embora que ela volta. Redobrada! Multiplicada...

Aí, com o passar do tempo, andando mundo afora, você percebe que você não tem de correr atrás de ser feliz, a todo custo, como o tão usado cliché. E que é quando você faz o outro sorrir, quando faz bem a alguém, quando age pro bem, é quando nem precisa fazer força e sorri, também.

O sorriso brota de volta. Quando o nosso sorriso brota no reflexo do outro, ele genuinamente tem raízes pra não desfalecer.


* Na foto, no Museo del Humor com Ivan Rosemblat

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Você é da multidão?


Você é do tipo que, volta e meia, se sente um E.T. no meio dos outros?
Talvez não seja você o E.T., mas seja o mundo que esteja virando um planeta estranho… E que crie tipos diferentes de seres: Nós, ETs e a multidão.

Existem pessoas que, definitivamente, não pertencem a multidão!

Não falo de multidão em movimentos ativistas, genuinamente politizados, reivindicadores de causas onde unir-se a multidão é sinônimo de ação comum. Falo de distinguir-se da multidão…

Há pessoas que parecem saltar da multidão.
Onde todo o resto parece ser feito em série, “uniformizado". Nadam contra a maré. Possuem um “quê” especial que as faz moverem-se em ações que não repercutem somente em suas vidas. Mas propiciam um despertar positivo em quem as rodeiam, numa onda do bem. Agem em suas vidas em algum aspecto que, de tão espontaneamente que fazem, contagiam. E fazem a diferença. São diferentes da multidão. Como ETs...

Pode ser por sua maneira de agir e reinvindicar algo que seja anseio comum, enquanto a multidão espera tímida, ou acomodada.

Pode ser por partirem para ações do bem, enquanto a multidão faz mil promessas de suas resoluções generosas ao outro, que nunca são colocadas em prática.

Pode ser por sua discrição silenciosa que esconde um gigante que não faz propaganda nenhuma no estilo “selfie” de sua atitudes e ações. Aquela que age em silêncio.

Pode ser por ser avessa ao que o mundo dita como moda, como o comum, como o “todo mundo faz” e ousar discordar de usar uniformezinho não somente no seu vestuário. Mas no seu comportamento. Não “engula goela abaixo” sem digerir primeiro e, se preciso for, vomitar se não for alimento. Que não tem medo de ser diferente da multidão, se a multidão estiver caminhando pra um abismo.

Pode ser por ser barulhento mesmo! De pôr a boca no trombone quando o silêncio apático não somente cala pensamentos, mas destrói sentimentos. Mortificando gerações que parecem sofrer de anestesia coletiva e crônica. E consentem com as mais aberrantes e perniciosas violências acontecidas ali ao seu lado. Aquela coisa do “homem invisível”. Conhece? (Uma outra história a ser contada…) E que revela que a multidão anda coletivando sentimentos, pensamentos e reações numa perigosa transformação de pessoas em robozinhos. Como na animação  Wall-E, que mostra tão bem a multidão engolindo tudo. Banalizando aquilo que nos faz humanos e especialmente diferentes um do outro.

Pode ser que ser ET quando ser comum seja viver desumanizado, seja a forma mais genuína de ser humano, num planeta adormecido, anestesiado com o “todo mundo faz”, “é assim mesmo”, “não tem jeito”.

São pessoas anônimas, ou nem tanto, que ousam nadar contra a maré, pra fazerem diferente e fazer a diferença que iniciam ondas do bem, avalanches positivas e ações concretas que mudam aquilo que precisa ser mudado!

Na multidão, ficam iguais e calados quem aceita pacote mandado, não avalia, não distingue se lhe faz bem ou mal. Engole e só.
Em alguma coisa há algo que te diferencia. E pode ser algo bem simples, quase nada, mas que pode ser um quase tudo pra outro alguém.

Já pensou em ser um pouco ET? ,

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Um minutinho, por favor?


-Pois não?
-Você poderia…
-Um minutinho, por favor?

Começa e termina assim. Uma venda. Um negócio. Uma empresa.
Ouvi hoje este começo de história. Gostei. Resolvi escrever.

Não é que é bem isso mesmo?

Postergar pra “um minutinho, por favor”, me disseram, é firma que vai à falência. Oportunidade de venda. Oportunidade que passa. Oportunidade perdida!
Naquele comecinho de diálogo do “Você poderia”  que você não pode parar o que fazia pra ouvir o outro, dar atenção, está algo que pode ser, o outro não esteja ali quando o seu minutinho passar, pra você saber o que ele queria.
Aí, é tarde!

Quando diante de você a vida lhe trouxer uma pergunta “Você poderia?” “Você faria?”, experimente poder. Assim como gentileza gera gentileza, oportunidades batem na porta, não esperam e se vão, pode ser  que um “Você poderia?” não fosse uma pergunta e fosse uma afirmação. Que você não abraçou e perdeu. Perdeu, playboy! Perdeu, não pode mais!

terça-feira, 6 de junho de 2017

A idade do cachecol. Mas, cachecol tem idade?



Aí me pego ainda com o medinho de passar frio. De pegar o resfriadinho desnecessário e ponho em prática outro artifício… O cachecol!
Alguém aí, já entortando o nariz, dizendo que cachecol é coisa só de avó, avô???

Vou confessar. Depois da historinha da “Idade do Pulôver”, que associei aos vovôs de plantão, me pediram para escrever sobre as avós… E algo da sua indumentária.Então, lembrei do cachecol. Este que uso tanto. Cachecol? Como assim???

Os avôs usam pulôveres?
As avós lindas, elegantes, estilosas, usam cachecol! Echarpes! Lenços de todas texturas, cores, nas mais infinitas formas de amarrações imagináveis…

Já viu?

Mulheres versáteis! Cachecóis são versáteis!
Quem pensa que a única função dele é apenas de enfeite, adorno, acessório está redondamente enganado.
Cachecóis são como pulôveres. Com o charme de serem irreverentes, certinhos, jogados displicentemente sobre os ombros, rodeando o pescoço, a cabeça, a cintura, o peito e… aquecerem!!!

Sim! Cachecóis são pulôveres disfarçados de acessórios mais bonitos que úteis e que escondem sua inteligente função: aquecem o peito, o pescoço, se precisar o tronco, as costas, ao gosto do freguês! Podem até fazer a função da boina, parzinho inseparável do pulôver, se jogado sobre a cabeça.

Cachecóis, echarpes, lenços são pecinhas despretensiosas que cumprem a função sem fazer estardalhaço. Sem ficar se aparecendo a exibindo a que vieram. Funcionam charmosamente e pronto!

Cachecol não tem idade. Nem sexo, nem estação. Porque em qualquer época do ano, você pode jogar um lenço no pescoço e fazer charme, se protegendo do resfriadinho desnecessário… Que ele aquece, enquanto desfila charmoso com cara de quem não quer nada…

Diria que cachecóis, echarpes e lenços são um aprendizado, um símbolo e um meio de ser versátil. Com o tempo na sua versão clima. Com o tempo na sua versão idade. Com o tempo na sua versão dos anos que se passam.

Um pequeno pedaço de pano, de lã, de seda, de algodão ou outro tecido qualquer. Comprido, retangular, quadrado, triângulo, pequeno, imenso. E como ele irá acontecer em você, é você quem se decide a fazer!

E, no final da contas, até parece que se parecem com tantas mulheres que os usam. Umas avós, outras mães, outras tias, primas, sobrinhas, filhas ou netas. Discretamente, protegem suas crias. Posando de quase nada, como se fossem apenas enfeites. Sendo que na verdade, são verdadeiros escudos de proteção! E silenciosas, trabalham.

Cachecol não tem idade!


domingo, 4 de junho de 2017

Qualquer dia...


Esboço
Qualquer dia é esboço.
Não é projeto, nem plano, nem sonho.
É frase feita.
Feito aquela de entrevista que o repórter te pergunta qualquer coisa e você começa respondendo:

-Com certeza!

Já viu isso?
Resposta automática. Tipo aquele tempo pra enrolar enquanto não se está dentro da pergunta ainda.

Você encontra alguém que não vê há tempos e a conversa termina assim:

-Vai lá em casa!!!
-Qualquer dia…

Alguém te chama pra fazer algo super legal...

-Vamos?
-Qualquer dia…

Pura mentira. Descompromisso. Joga pra frente (de mentira!) como se fosse, realmente sua vontade ir mesmo na casa do fulano, ir mesmo naquela viagem, naquele lugar imperdível num qualquer dia num futuro próximo e existente…

“Imperdível” é o oposto direto do “qualquer dia”. Qualquer dia você faz de conta que vai. Imperdível você vai porque é imperdível.

Sabe de uma coisa?
Viver é imperdível. Não numa linha linear e abstrata. Mas a cada dia! Cada dia é imperdível. Não serão todos dias azuis ensolarados e de sorrisos. Vai ter dia cinza, nublado, de choros, de vontade de jogar pra frente, por falta de vontade de fazer e de viver.
Mas passa!!!!

Quando aparecer à sua frente portas que se abrem com oportunidades, não tenha medo de entrar e passear. Ninguém está prometendo um passeio atemporal que não tenha data pra acabar. Nem tampouco te dando um ingresso com data de validade pra usar. Quando se passa por uma porta, pra viver cada dia de cada vez, a duração de cada dia não importa. Porque cada dia vai ter sua riqueza, sua alegria. Pode ser que estas oportunidades venham na forma de pessoas, situações, dificuldades, caminhos.

O que importa, no final das contas, é viver TODO dia. QUALQUER DIA não existe. Não aconteceu. Nem vai acontecer se você não fizer hoje, mesmo!

Passe a porta hoje. Não num qualquer dia...

sábado, 3 de junho de 2017

O monstro que mora na gaveta (Ou porque temos medo do que não vemos!)


Havia um garotinho que morria de medo de um monstro horripilante. De olhos esbugalhados vermelhos de sangue, mãos gigantes de unhas pontiagudas, que grunhia e babava quando ficava nervoso.
Conta-se que ele morava na gaveta. Uma gaveta que vivia fechada e ele sempre ouvia dos outros adultos da casa, para nunca abrir a gaveta. A gaveta não era chaveada. Mas ele jamais ousou abrir. Nunca, ninguém viu o monstro porque era arriscado espiar pela fresta. Como se sabe a descrição do monstro, ninguém sabe, porque nunca ninguém viu!

Percebe? Temos medo do monstro que mora na gaveta! Uma gaveta fechada que, diz a lenda, tem um monstro que mora nela. A gente não tem certeza que o monstro existe. Não é do monstro que temos medo. É de abrir​ a gaveta!!!

Vou desenhar. Vou falar de dores! O medo da dor.

Porque o medo dói mais que a dor? Já sentiu? O medo dói. E dói mais que a dor. Por que?

Fisioterapia é algo que me acompanha por décadas! Lá convivo com minhas dores. Porque lá manipulam todas as dores velhas e as novas também. As velhas já conheço bem. Convivo. Me acostumei. As novas…  Tenho medo.

-Dói? - me perguntam.
E eu, mais fazendo careta que sentindo dor, respondo:
-Dói…

Não dói. Ainda. É o medo da dor!

A gente tem sempre medo de algo inexistente. Que não aconteceu ainda. Por causa de outras coisas que já aconteceram e que ficamos achando que vão se repetir.

Uma coisa: o que foi, doeu. O que não aconteceu ainda, não precisa doer!

Dor é sensação de tempo presente.
Medo é sensação por algo inexistente que você receia acontecer lá na frente.
Medo de não passar no vestibular, de não conseguir tirar a carteira de habilitação, de uma prova, de um fora, de perder o emprego, de não ter dinheiro pra pagar as contas, de não conseguir realizar um sonho, do que vai acontecer aos seus filhos, de ser rejeitado, de o que pode acontecer no escuro, de dirigir e bater o carro, de te tratarem mal, de ter treinado e não conseguir ir bem numa prova, numa competição. Medo de se machucar.

Machucar, machucar, machucar.
O medo é o medo do monstro da gaveta!
Dor é quando você já se machucou.

O monstro da gaveta é lenda. Ninguém nunca viu…  Abra a gaveta! Pode ser que você se surpreenda. Só vai saber se abrir...

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Voei II (A saga de levantar vôo nos tombos!)


Tinha apenas vinte e um anos na primeira vez. Não quebrei nada. Rompi. Um ligamento no joelho que virou linha que arrebenta, assim. Tóim. Caí na hora. Mas o que eu voei por causa dessa história…

Tudo o que topei de difícil, por causa disso virou desafio. E peitei e venci. Nada de Historinha da Carochinha. Nem varinha de condão. Nem fada. Nem moedinha de desejos em fonte d'água. Foi no suor, na vontade e por acreditar. Acho que é fé o nome disso, né? Que faz a gente acreditar naquilo que ninguém vê?

Tem também um outro nome. Teimosia. De um modo ou de outro, foi quando comecei a nadar contra a maré. O fácil vai ficando sem graça, sonso. Pedindo algo mais. Aí, é um misto de atrevimento que alguns chamam de falta de juízo. E eu segui acreditando que tudo valia à pena. Que repetiria tudo de novo.

Prefiro pôr o nome de sonho. Que engana se fazendo de algo ligado ao desacordado. Na verdade, é quando mais acordados estamos. Ao viver um sonho. Porque é aí que somos escancaradamente sinceros com aquela voz laaaaaaá dentro que conhece a gente por inteiro e fica sussurrando… “Vai…”

Se fosse para ser fácil, não seria uma conquista.
Se fosse para ser o óbvio, não seria um desafio.
Se fosse algo que sem fazer força nenhuma, você atingisse, obtivesse, chegasse, não teria graça nenhuma!

Por isso, os obstáculos são obstáculos! Para serem olhados de baixo, como se fossem intransponíveis! Pois é ali que criamos uma força tremenda, até então desconhecida, uma gana, uma fé, a vontade e a força que nos move… Não precisa ser de primeira. Porque o obstinado não desiste fácil. Nem é prepotente, nem orgulhoso que não tente de novo se algo der errado no caminho.
Porque descobre que sempre há um outro caminho pra se tentar!

Vôos começam no chão. Num bater de asas desajeitado, barulhento para depois se transformar num suave movimento que embala e sabe aproveitar o vento…
Alguns pensam que estar no chão é tombo.
Outros sabem que é vôo. Que logo vai se iniciar.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

As pessoas, o caminho, o tempo.



Faz da vida, poesia.
Caminho onde entram pessoas, permanecem alguns, outros inesperadamente saem, outros mais partem. Alguns outros, sem nunca nos conformarmos, embora estejam ainda no caminho, distanciam-se não partilhando mais nossos passos. Pois que a vida, este caminho misterioso, é uma mistura de tempo e espaço. E a partida de pessoas deste nosso caminho, só a morte é capaz. Mas o descompasso dos corações traz um andar de longe, distante em espaço, visto como se fosse um andar por diferentes trilhas mas que, muitas vezes, revela, ainda  que não consciente, que se vai ao mesmo destino, gosta-se dos mesmos caminhos, busca-se as mesmas coisas, mas por causa de conversas não conversadas, pessoas que poderiam estar caminhando juntas seguem por caminhos paralelos, mas diferentes.

Perdi amigos no caminho. Que não gostaria de ter perdido. Não para a morte, que esta, os que me roubou, a ausência ainda que jamais aceita, é caminho sem volta. Sinto que perder amigos é não tê-los em se querendo ainda ter. É avistar de longe, acompanhar com carinho, torcer sinceramente para que o sol a acompanhe e que a chuva mansa e boa venha sempre na hora certa, que haja sempre melodia agradável e que a letra de sua música seja tão boa quanto, para que sua vida seja uma bela sinfonia, que faça luz e jus a tanto que ela mesma espalhou aos outros.

As pessoas passam. As lembranças ficam. Os passos marcam. Mas enquanto não somos e não temos retirados deste tempo e deste espaço, fica a saudade, mistodevontade de querer ter ainda por perto.
Se falha no espaço, então, fico acreditando que o tempo conserta coisas, feridas, ranços, intrigas, desentendimentos, porque algumas coisas que pareciam ser grandes, tornam-se pequenas, insignificantes com o passar do tempo. E, creio, o coração pede. E se a alma cede, o tempo concede.

Sorriso de cachorro



Cachorro sorri?
Como não?
Cachorro não só sorri com aquela feiçãozinha miúda, como sorri e demonstra alegria de corpo todo, sacolejando da pontinha do focinho até a ponta do rabinho!
Não é?

Sempre tivemos cachorro em casa. Gatos também. Gosto dos dois. Mas gosto mais de cachorro.
De criança, eu tinha a Shila. Era Priscila. Apelidamos de Shila. Sim. Cachorros também tem apelido. Mas naquele tempo o mundo canil era bem diferente. Quando muito, luxo era pode entrar em casa, um pouquinho só!

Ela foi minha companheirona de ir buscar pão na padaria. De ensinar truque de sentar, dar a patinha, subir escada daquelas de montar, de ir no clube brincar. Aliás, diga-se de passagem, encontramos ela no clube, jogando tênis no paredão e ela correndo atrás da nossa bolinha, sapeca! No final do dia, aquela choradeira de “manheeeeeê… deixa a gente levar ela pra caaaasaaa???”

Tive outros depois. Vira-latas um monte. Pastor alemão, labrador e agora um shih-tzu. Inteligente demais da conta! Tem uns vinte bichinhos e brinquedos diferentes. Pode pedir cada um por nome e ele busca certinho. Fora os truquezinhos de cachorro de senta, dá a patinha, deita, morto, vivo, rola, senta, roda, de pezinho, gira, deita, arrasta, senta, fica tocaaqui, tocaali. Ufa!

Cada vez mais, a gente vê cachorro fazendo cada coisa… Andando de skate. Correndo junto. Indo junto de bicicleta (Nós!!!)


Nem vou comentar aqui sobre como e o quanto o universo canil mudou! E como se tornaram ainda mais parceiros de seus donos. Que aí dá outra história!

O que me encanta mesmo é o sorriso de cachorro! As expressões que estes bichinhos fazem nos contando dos seus sentimentos... De alegria imensa em nos ver. Tristeza de saudade. Cara de“me perdoa, me perdoa” quando a gente flagra eles em alguma arte! Cara de mau pra nos defender. Cara de “não entendi” quando a gente fala rápido demais. Ou quando faz de conta que não sabe que é pra ir. E tem também, aquela carinha de sono profuuuuuuundo, de priguicinha, de “oi?” e de estar em alfa…

A despeito de se estar invertendo valores, excedendo no carinho ou no tratamento humanizado a estes cãezinhos e cachorrões, a carinha deles foge à regra e ao tempo. Cachorros sempre sorriram, sempre nos deram carinho incondicional, sempre foram leais acima de tudo aos seus donos, ultrapassando qualquer racionalidade que se possa traçar pra entender. E entender também o quanto são mais leais que muitos humanos...

Carinha de cachorro sempre é certeza de sentimento sincero. Sorriso de cachorro nunca vai ser amarelo, nem falso, nem de ironia. E aquela carinha dele cura tristeza, cara feia, coração duro de brabeza, e derrete gente que não sorri pra gente.

Duvida?

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Sorria! Você NÃO está sendo filmado!


-Boa tarde!

(Cara de oi?)
Insisto com um sorriso:

-Boa tarde! Ninguém mais fala boa tarde, né?

(Com um sorriso tímido, meio desconsertado)

-Boa tarde!

E o senhor, já um pouco mais à vontade, assentiu com a cabeça o que falei.

-É, hoje em dia quase não se ouve boa tarde…

Esperávamos o sinal abrir para o pedestre. Era uma avenida bem movimentada, uma das principais da cidade. Estávamos no canteiro central, em meio à confusão de abre sinal pra uma pista. Fecha pra outra. Brinco com ele sorrindo:

-O senhor assustou? Hoje em dia quase ninguém mais fala bom dia, boa tarde, boa noite, né?

Já mais animado com a conversa inusitada, pego de surpresa, emendou:

-Verdade. Trabalhei 27 anos naquele prédio (aponta para o prédio a 50m da gente) e ali tinha moradores que nunca me deram bom dia!

-As pessoas foram perdendo o costume da boa educação, né!

Indico a ele que o sinal abriu e atravessamos juntos.

-Como é o nome do senhor?

-Rubens. E o seu?

-Susi.

Ele repete alguma coisa parecida com o meu nome e eu falo devagar e brinco que é o nome da boneca. Aquela velha história do meu nome. Que puseram este nome porque queriam o nome de uma boneca…
Ele ri, entende e não esquece mais o meu nome. Me conta que está indo renovar o seu cartão de “idoso”!
Abro um sorrisão e despeço-me dele.
Ele me acena de volta com um sorriso largo no rosto!
Saio com um gostinho feliz no coração…

Mais dois quarteirões e um senhor de colete refletivo “laranja cheguei”, sentado numa cadeira cedida, ao lado dos carros estacionados que ele está cuidando.

-Boa tarde.

Falo caprichando no sorriso e recebo de volta:

-Boa tarde, jovem!

Nossa… Como é bom, como faz bem receber boas tardes! Ouvir de volta junto de um sorriso a cordialidade de um bomdia, boatarde, boanoite…
Saio flutuando dali! Ainda mais com o acréscimo do “jovem”. Eu, uma cinquentona!

Já estava feliz caminhando, agora estava quase saltitante de mais feliz!
Vou o caminho todo pensando. Tão pouco faz feliz! Gestos minúsculos que duram segundos. Faz bem ao outro. E nisso, faz um bem pra gente de volta que nada comprado comparado, é capaz!

Viagem no tempo. Lembro dos “bons dias” que eu disparava quando comecei a caminhar no lago! Era uma brincadeira premeditada minha, quando me propus a caminhar todos os dias. Passar por cada um e dizer bom dia! Num baita sorriso! E receber de volta, fosse o que fosse e no outro dia, de novo, disparar “bons dias”!

Uns se assustavam e ficavam mudos. Uns me olhavam com cara de espanto. Outros arregalavam o olho e balbuciavam algo parecido com um “bom dia” meio sem som, por puro desuso. Alguns poucos, de primeira respondiam “bom dia” e outros tantos sorriam simpáticos e me respondiam “bom dia” quase numa melodia!

Secretamente, eu me divertia. Como era diverso este mundo interior do ser humano.

Retorno dos meus pensamentos, me vi na mesma situação. Continuei por todo caminho até minha casa disparando meus “boas tardes” e vi a mágica. O bem atrai o bem! Sorriso desarma cara feia e provoca sorrisos!

Alguns demoravam mais a se desarmar. Mas com o passar do tempo, todos passavam a ser rostos conhecidos do meu e eu deles. E passei a ganhar inúmeros sorrisos por dia naquelas caminhadas matinais! É nesta tarde de tantos "boas tardes", sorrisos provocaram sorrisos recíprocos!!!

Olhe só o que somos capazes de provocar! Têm ideia da dimensão? Aquilo que disparamos, recebemos de volta...
E se, ao invés de caras feias e grunhidos, déssemos bom dia, boa tarde, boa noite com o mais largo dos sorrisos?

Sorrir é um bem que se distribui ao longo do dia. De graça, faz graça e faz leve o caminhar…

Que tal tentar?

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Cortando a corda


Hora de acordar.
Um pesadelo. Um verdadeiro pesadelo o tempo vivido.
Abro os olhos e vejo a cena e não acredito!
É mesmo verdade. Estou a beira de um precipício, dependurada na parede e coisas não programadas aconteceram.

Estamos todos exaustos! Não há mais força nenhuma a buscar para lutar contra o imprevisto.
Fomos inconsequentes e quisemos correr o risco. E o risco veio cínico a quem foi cínico com ele…

Fechei os olhos por instantes que pareceram uma eternidade. Tentei fechar para acordar do pesadelo e abrir e ver que era tudo mentira! Abri e estava tudo aí do mesmo jeito esperando minha decisão.

Como fomos chegar a isso?
Por que foi que quisemos brincar de fazer de conta que não acabaria assim?
Fomos escalando, escalando e não imaginávamos chegar tão longe. Nós nos empolgamos sem medir as consequências.
Ostentamos a bandeira de que “tudo vale à pena se a alma não é pequena”. E descobrimos na dor que isso serve para quem empaca e não consegue sair da inércia. Que deve tentar viver. Mas quando se trata de pôr em risco o viver… Não. Não é tudo que vale à pena…

Parece cena de filme. E, em questão de segundos, meu pensamento viaja e penso que vi esta mesma cena num filme.
Uma corda, duas pessoas.
Uma fica, a outra não.
É possível termos nos metido numa encrenca tamanha destas?
É isso. São duas pessoas numa corda só. A corda não é capaz de suportar as duas. E é preciso escolher qual fica e qual vai. Vai à queda.

Então eu pergunto: isso é mesmo um assassinato? Cortar a corda para uma morrer? Não seria um sincero ato de braveza dar a chance de uma delas viver? Pois se ambas permanecerem na corda, ambas irão morrer. E elas sabem disso.
Se não escolher cortar a corda enquanto é tempo vou assistir as duas caírem junto de uma corda que não pode mais suportar as duas. É preciso escolher.
E se elas pudessem escolher cortar a corda? Cortariam?

Na corda, sou eu dependurada junto àquilo que não consigo deixar ir. A escalada foi boa. Realmente boa! Tudo o que foi visto ali da parede, visto assim como o que nos acompanhou nesta inconsequente escalada, seria boa desculpa para se dizer que valeu à pena. Será? Porque agora percebo que trazia junto de mim, um peso extra. Um peso desnecessário. Um peso que se eu continuar a insistir em levar comigo nesta escalada que já passou da metade e em algum momento chegará ao fim, me custará minha vida!

Eu preciso cortar a corda! Senão, serei eu a sucumbir com ela. Um assassinato para não ser um suicídio consentido.

Hora de cortar fora o peso extra!

Na corda, um será sempre você. O outro sempre será aquilo que te amarra, que te puxa para baixo, que não te faz nem andar, nem evoluir. Que te faz pender porque te prende. E que te aprisiona sutilmente e egoisticamente porque não solta a corda para você ir!

Pode ser algo que você ainda acredita. Ou alguém de quem você não desistiu. Um emprego, ou desemprego. Um amigo, ou desamigo. Um amor ou desamor. Pode ser que seja o sonho que acreditou e virou um pesadelo. Ou tudo aquilo que acreditou e acabou. É o que você resiste a deixar ir.

Cortar a corda pode ser a única coisa que pode te salvar de continuar a ficar dependurada numa parede sem contemplar à volta, a vista linda e mirar o topo para chegar sã e salva ao fim…

Corte a corda.

domingo, 28 de maio de 2017

Ciclos! Do ninho, às asas, ao vôo...



Há o tempo em que, ninho cheio, olhos atentos, asas amplas e protetoras, mantemos sob elas, nossos filhos e contamos-lhes histórias para que encham seus olhinhos de curiosidade, sede da busca, fomente-lhes sonhos expressos no brilho típico de quem tem todo o horizonte à frente.
Chega o tempo em que ensaiam seus primeiros voos. 

Chega o tempo em que voam.
Chega o tempo em que retornam ao ninho...

Meu  primeiro pássaro, uma gaivota,  partiu há sete anos e meio. Deixou vazio seu espaço no ninho, distribuiu e colheu histórias!
Caminhou e parou quando necessário. Recobrou forças quando se sentiu cansada. Mirou horizontes.  Galgou montanhas. Desceu por vales.  Desejou os céus e os alcançou,  simplesmente por acreditar que poderia tê-lo. E por ir, tão somente,  descobriu suas asas. E voou!

E foi tão arteira e faceira a brincadeira que gargalhou-se um monte.  E tão alto o som de sua risada que ecoou em sua alma. E tão intensa a felicidade que durou pra sempre. Porque pra sempre é o que temos até o agora!

Seu voo, mesmo que tendo um ponto de pouso, escancarou tão escancaradamente a sua risada que seu coração foi tomado do vento.  E o tempo fez uma pausa. Para que, lá de cima, ela pudesse avistar toda sua vida. E num passeio pelo ventotempo pudesse vislumbrar a sua frente seus quereres...

Não é que, num passe de mágica, de repente soubesse o que teria por vir. Não!  São cores, odores,  sabores, amores que compõem o amanhã. Mas olhar pra eles com olhos de desejo, com alma leve, levou-a por caminhos inimagináveis. E mesmo sem saber seu futuro, o soube! Seria voar através de viagens em que a riqueza e a distância não dependiam da medida física,  mas da grandeza de sua alma. Da intensidade com que desejasse e vivesse cada momento. E, assim, a intransposição do tempo e do espaço eram dizimadas.

Só quem ousa o vôo,  descobre-se com asas.
E, uma vez sabendo-se pássaro livre,  não há mais como ser contido em gaiolas dos impossíveis!
Giovana Saito em dois dias,  de volta ao ninho!
Um pouso. Pra um novo começar...