Assisti a um filme hoje que conta a história linda de um amor inesquecível! Tendo como fundo as férias de uma estudante que passa uns dias na Irlanda e que conhece da maneira mais inusitada, um sorridente e bem humorado (e lindo!) rapaz que, igualmente, se encanta por ela. Uma história vivida por anos (nove) e no auge de uma vida juntos onde a mulher já deixou todo aquele encanto natural próprio, pra se tornar aquela pessoa racional, que já não mais sorri por achar que é a parte pensante e racional do casal, passa mais tempo reclamando e rabugenteando do que vivendo, simplesmente, este amor. Daria uma tese! Uma longa devagação. Aí, eu penso: porque nós mulheres deixamos nossa essência morrer? Somos encantadoras! E deixamos de ser! Amamos! E deixamos de demonstrar. Um bom sinal, ao menos, uma leve esperança de que ainda há jeito. Enquanto não nos deixamos sucumbir e enterrarmos vivos àquele a quem amamos.
Acredito em várias hipóteses. Já não inventaram diversos nomes de síndromes e complexos para explicar tanta coisa errada que acontece? Invento o meu: “síndrome do não-sei-amar”. Veja bem: não disse “síndrome não-amo”. Mas, “não-sei-amar”...
Não sei vocês, mas eu vivi anos num treinamento maçante e eficiente de auto-suficiência, de ser forte, de independência. Não culpo a minha mãe. Foi a melhor forma dela expressar o seu amor pela gente. De nos tornar pessoas que não precisam de outras pra serem felizes, realizadas. De conseguirmos seguir sozinha. Já que era assim que ela se via. Sozinha! E foi assim que me tornei e aprendi a querer deixar de ser. Sozinha, independente, auto-suficiente. A vida da gente é um atropelo louco. Erramos e ansiamos por não vermos a quem amamos passando pelos mesmos erros. Não pretendo fazer nenhuma resenha do filme a que acabei de assistir. Mas ele teve cenas tão verdadeiras que ainda estão latejando na minha mente. E uma delas mostrava a mãe confessando à filha o quanto ela temia e sofria ao ver sua filha caminhando para o mesmo caminho que ela, um dia, traçou. De estar com alguém que a fazia rir tanto e que a deixou sozinha depois. Onde não importava o motivo de se estar sozinha: ser abandonada ou o marido morrer abruptamente. Porque o que ficava, pra quem ficava, era o sentimento de estar sozinha. Aquele vazio de não se estar mais coma a pessoa amada ao seu lado. E a necessidade de se prosseguir. Segurando ainda a mão do seu amor. Não querendo soltá-la. Tendo o medo de dizer adeus. De ter, de novo, um outro amor. De pensar-se infiel a um amor tão lindo. Como se insistir em se manter o velho amor entre seus dedos da mão fosse a maneira mais segura de continuar, de tê-lo ainda consigo. De continuar o mesmo vôo. De não abrir mão de sua companhia. Como se fosse errado permitir-se abrir a gaiola. Sair da gaiola. Como se fosse absurdo ver o amor como uma gaiola. E não perceber que o amor de outrora tornou-se, mesmo, uma gaiola de onde se tem o absurdo medo de sair. De ousar um novo vôo. Pelo simples fato de ser mais fácil, menos cansativo, deixar de bater as asas. Numa contradição medrosa de optar por viver. De sair da beiradinha do penhasco. Não para recuar, retroceder. Mas de permitir-se, uma vez mais, sentir a brisa refrescante do vento suave na cara, de deixar-se envolver pelo ar, pela brisa que sustém, revigora e que nos mantém vivos. Aquela coisa invisível que existe, que não se vê, mas que está ali. Pra quem quiser ariscar. De alçar o seu vôo...
Talvez, eu esteja descobrindo agora, enquanto eu escrevo, o porquê de tanta demora pra me libertar. De abrir mão. Do porquê de insistir em manter comigo uma longa e antiga história de amor tão linda quanto, injustamente, interrompida. Tenho descoberto tantas facetas minhas, ate’ então, desconhecidas... Não me estranharia com mais nada! Fui adestrada para ser forte, me descobri fraca. Ensinaram-me a não depender de ninguém, sou extremamente carente de pessoas que tenham vínculos comigo. Com quem possa contar e também, depender. Aprendi que deveria ser responsável e eficiente e confundi isto com sisudez, perfeccionismo, arrogância, orgulho e preconceito. Indicaram-me que o caminho pra realização era ser bem sucedida, mas esqueceram de me dizer que isto implicava na opção em retardar o “ser feliz” para mais tarde. E que o tempo a ser vivido deveria ser sempre o futuro a ser traçado e perseguido. Que o presente seria o caminho apenas para isso. Mas não me deram a fórmula para deixar de viver com o pé no passado, na defesa ingênua pelo medo monstruoso que eu tinha do futuro e da insegurança completa de viver no presente aquilo que houvesse. E isto determinou que eu vivesse sempre no tempo errado. Sempre estando fora do hoje. Perdendo o trem na estação, ora por estar adiantada, ora por estar atrasada. E, hoje, então, decidi fazer uma pausa. Permitir-me ser eu mesma, uma vez mais. Aquela que, simplesmente, escrevia. E atrevia-se. E vivia. E enxergava, um pouco melhor, os seus próprios sentimentos. Não se intimidava em re-organizar, quantas vezes fosse necessário, os seus próprios pensamentos. E seguia, apenas.